A Taça Jules Rimet, o primeiro troféu oficial da Copa do Mundo da FIFA, possui um histórico marcado por conquistas esportivas, preservação em períodos de guerra e episódios de roubo. Criada para premiar a melhor seleção de futebol do planeta, a estatueta acabou destruída após ser roubada no Rio de Janeiro na década de 1980. Toda essa trajetória está diretamente ligada ao seu idealizador, que completou o marco histórico de 150 anos de nascimento em 2023.
Os 150 Anos do Idealizador
Em 14 de outubro de 2023, completou-se o sesquicentenário (150 anos) de nascimento de Jules Rimet. Nascido em Theuley, na França, em 1873, o dirigente francês foi o terceiro presidente da história da FIFA, comandando a entidade por 33 anos (de 1921 a 1954) — o mandato mais longo da instituição. Sua gestão foi fundamental para profissionalizar o futebol internacional e unificar as federações em torno de um torneio global próprio.
Por que a FIFA colocou o nome de Jules Rimet na taça?
Inicialmente, o troféu de ouro criado em 1930 chamava-se apenas “Vitória”. No entanto, em 1946, a FIFA decidiu rebatizar oficialmente o objeto como Taça Jules Rimet para homenagear o dirigente pelos seus 25 anos de liderança incontestável e pelo seu esforço hercúleo em manter a federação viva durante a Segunda Guerra Mundial.
Rimet enfrentou boicotes de países europeus, crises financeiras e o hiato de duas edições do torneio devido ao conflito global. A homenagem vitalícia reconheceu o homem que transformou a Copa do Mundo de uma ideia abstrata para o maior evento unificado do esporte no planeta.
Origem e Características do Troféu
O troféu foi projetado pelo escultor francês Abel Lafleur para a edição inaugural do torneio, realizada no Uruguai. A peça tinha 3,8 quilos, 35 centimeters de altura e era composta de prata esterlina banhada a ouro, com uma base azul feita de lápis-lazúli. A escultura representava Nice, a deusa grega da vitória, segurando um cálice de forma octogonal.
O Período da Segunda Guerra Mundial
Com a suspensão das edições de 1942 e 1946 devido à guerra, o troféu permaneceu sob a custódia da Itália, campeã da edição de 1938. Para evitar que as forças de ocupação nazistas confiscassem o ouro da premiação, o vice-presidente italiano da FIFA, Ottorino Barassi, retirou secretamente a taça de um cofre bancário em Roma. Barassi a manteve escondida em uma caixa de sapatos sob sua própria cama até o término do conflito.
O Primeiro Roubo: Londres (1966)
Em março de 1966, meses antes da abertura da Copa do Mundo da Inglaterra, a taça foi exposta ao público no Westminster Central Hall, em desenhos e acabou sendo furtada da vitrine. A estatueta foi localizada sete dias depois por um cidadão chamado David Corbett e seu cão de caça, Pickles. O animal farejou o troféu, que estava embrulhado em jornais e escondido em um jardim residencial no sul de Londres.
A Posse Definitiva pelo Brasil e Falha de Segurança
O regulamento vigente da FIFA estipulava que a primeira federação nacional a conquistar o torneio por três vezes obteria a posse definitiva do troféu. O feito foi alcançado pela Seleção Brasileira em 1970, após a vitória sobre a Itália no México. A partir da edição de 1974, a FIFA passou a adotar o modelo atual do troféu, que não é concedido em definitivo.
A Jules Rimet original foi transferida para a sede da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), localizada na Rua da Alfândega, no Centro do Rio de Janeiro. No local, os dirigentes optaram por guardar a réplica da taça dentro de um cofre forte, enquanto a peça original de ouro foi colocada em exposição em uma vitrine com moldura de madeira e vidro comum no no edifício.
O Roubo de 1983 e o Derretimento
Na noite de 19 de dezembro de 1983, o prédio da CBF foi invadido. O plano foi arquitetado por Sérgio Pereira Ayres (“Sérgio Peralta”) e executado por Francisco Rivera (“Chico Barbudo”) e José Luiz Vieira (“Luiz Bigode”). Os criminosos renderam o vigilante de plantão, subiram até a sala da presidência e, utilizando um pé de cabra, arrombaram a estrutura de madeira da vitrine para retirar a Jules Rimet.
Investigações posteriores da Polícia Federal apontaram que o troféu foi entregue ao comerciante de ouro e receptador argentino Juan Carlos Hernandez. Conforme a versão oficial aceita pela Justiça brasileira, a Taça Jules Rimet foi totalmente derretida em um cadinho industrial para a comercialização clandestina do ouro. Atualmente, da estrutura original da primeira taça, resta apenas a base de lápis-lazúli, que não havia sido enviada ao Brasil em 1970 e permanece guardada na sede da FIFA, na Suíça.