Em um ano marcado por adaptações ambiciosas de Stephen King, como O Macaco e a iminente série de Carrie, surge A Vida de Chuck, dirigido e roteirizado por Mike Flanagan, o mestre do terror psicológico por trás de Doutor Sono e A Maldição da Residência Hill. Baseado no conto homônimo da coletânea Com Sangue (2020), o filme chega aos cinemas brasileiros em 4 de setembro de 2025, após uma jornada de sucesso internacional: estreou no Festival de Toronto em setembro de 2024, onde conquistou o prestigiado People’s Choice Award, e foi lançado nos EUA em junho de 2025 pela Neon, acumulando críticas positivas com 85% de aprovação no Rotten Tomatoes e uma média de 7,4/10 no IMDb. Não é um terror clássico de King, mas uma reflexão filosófica e emocional sobre a efemeridade da vida, que mistura elementos de ficção científica, drama e fantasia em uma narrativa não linear, invertendo a cronologia para começar pelo fim e retroceder ao início. O resultado é uma obra tocante, que transforma o ordinário em extraordinário, embora nem sempre escape de um sentimentalismo excessivo.
A trama, fiel ao texto de King, é dividida em três atos que contam a história de Charles “Chuck” Krantz (Tom Hiddleston), um homem comum cujos 39 anos de vida se entrelaçam com o colapso do universo. O primeiro ato, ambientado em um futuro distópico alarmantemente atual, acompanha o professor Marty Anderson (Chiwetel Ejiofor) em uma pequena cidade americana à beira do apocalipse: desastres naturais devastam o planeta, a internet entra em colapso, suicídios disparam e até o Pornhub cai offline – um detalhe irônico que injeta humor negro na narrativa. Outdoors e anúncios misteriosos surgem por toda parte, homenageando Chuck com a frase “39 anos incríveis! Obrigado, Chuck!”, sem que ninguém saiba quem ele é. À medida que Marty se reconecta com sua ex-esposa Felicia (Karen Gillan), uma enfermeira exausta, o mundo desmorona, culminando em uma revelação chocante: o fim do universo está ligado à morte de Chuck por um tumor cerebral. Esse segmento, com tons de sci-fi e melancolia, é o mais impactante, evocando o desespero coletivo em meio a uma pandemia global e crises climáticas que ecoam nossa realidade de 2025.
Retrocedendo no tempo, o segundo ato foca em um momento pivotal da vida adulta de Chuck: durante uma conferência bancária em Boston, ele impulsivamente se junta a uma baterista de rua (Taylor Gordon) e uma jovem recém-abandonada (Annalise Basso) em uma dança espontânea e exuberante na praça. Hiddleston, com sua elegância natural, brilha nessa sequência coreografada com maestria, transformando-a em um hino à alegria efêmera – uma explosão de vitalidade que contrasta com o fatalismo do ato anterior. É aqui que o filme revela sua essência otimista: a vida é feita de conexões aleatórias e instantes de pura presença, inspirados na linha de Walt Whitman “Eu contenho multidões”, que permeia a narrativa como um mantra sobre a multiplicidade da existência humana.
O terceiro ato mergulha na infância de Chuck, criado pelos avós Albie (Mark Hamill) e Sarah (Mia Sara) em uma casa vitoriana supostamente assombrada. Hamill, em uma das melhores atuações de sua carreira pós-Star Wars, interpreta o avô alcoólatra e pragmático com uma mistura de rispidez e ternura, lidando com traumas familiares e a pressão para que o neto abandone sonhos de dança em favor de uma carreira estável. Elementos sobrenaturais surgem, como uma cúpula trancada que revela visões do futuro, adicionando um toque de horror psicológico típico de Flanagan. Jovens intérpretes como Jacob Tremblay e Benjamin Pajak capturam a inocência e a melancolia de Chuck, conectando os fios da trama e enfatizando como memórias infantis formam o “universo” interior de cada indivíduo.
Flanagan, conhecido por explorar o luto e o sobrenatural em obras como Missa da Meia-Noite, aqui abandona os sustos em favor de uma abordagem contemplativa, influenciada por clássicos de King como À Espera de um Milagre e Um Sonho de Liberdade. A fotografia de Laurence Sher alterna tons sombrios e quentes, enquanto a trilha dos Newton Brothers evoca uma sensação cósmica serena. O elenco é um destaque: Hiddleston transmite uma quietude etérea, Ejiofor e Gillan ancoram o realismo emocional, e Hamill rouba cenas com profundidade rara. No entanto, o filme não é imune a críticas: alguns veem excessiva exposição narrativa e transições abruptas, que diluem o impacto poético, tornando-o ocasionalmente didático em sua mensagem de “viva o momento”. Como nota a crítica do Omelete, é “fantástico e melancólico”, mas pode frustrar quem busca o terror puro de King.
Em tempos de incertezas globais, A Vida de Chuck surge como um antídoto otimista, celebrando a maravilha da existência cotidiana sem ignorar a inevitabilidade da morte. É uma adaptação que honra o legado de King ao elevar o homem comum a um microcosmo do universo, convidando o público a refletir: e se cada vida for, de fato, um mundo inteiro? Para fãs de dramas existenciais como Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo, vale a pena.
Nota 5/5