Tiradentes, a pacata joia histórica de Minas Gerais, foi mais uma vez invadida por uma horda de 70 mil almas em busca de validação gourmet. A desculpa da vez para congestionar as ladeiras de pedra e inflacionar os preços locais foi a 29ª edição do Festival Cultura e Gastronomia, um evento que se vende como intercâmbio cultural, mas que funciona mesmo como um grande parquinho de diversões para o ego de chefs e a ostentação de turistas de classe média alta.
O tema do ano, Minas Lusitânia, tentou vender a revolucionária ideia de que a culinária mineira tem raízes em Portugal. Uma obviedade histórica que qualquer estudante do ensino fundamental domina, mas que sob a grife do festival ganha ares de descoberta científica para justificar pratos com nomes difíceis e porções milimetricamente reduzidas com preços astronômicos.
O curador do evento, Rusty Marcellini, subiu ao palco para compartilhar sua epifania: descobriu em suas viagens que tanto no Alentejo quanto em Minas come-se porco. É preciso aplaudir a audácia de embalar a banha de porco e o leitão à pururuca como conexões conceituais transatlânticas para um público que finge surpresa enquanto segura uma taça de vinho de três dígitos.
Por trás dessa celebração quase espiritual da comida, opera a engrenagem bem lubrificada da plataforma Fartura Brasil. Desde 2018, o grupo promove expedições de pesquisa a Lisboa e Porto, o que soa muito como uma bela desculpa corporativa para tirar férias em euros enquanto se estuda o óbvio ufanismo gastronômico além-mar.
Para a histórica 30ª edição, em 2027, o mistério impera. Sem tema definido, ventila-se a possibilidade de olhar para a América Latina e voltar às origens. Traduzindo do jargão de relações públicas: depois de esgotarem o filão europeu colonizador, vão finalmente lembrar que dividimos fronteiras com vizinhos que também sabem cozinhar sem precisar de visto Schengen.
No Largo das Forras, o formigueiro humano se acotovelava no Espaço Interativo. A grande atração eram os desafios culinários, uma espécie de MasterChef de calçada onde o cidadão comum compete para ver quem reproduz melhor a receita do chef da vez, tudo sob o sol escaldante e o olhar julgador de quem pagou caro para ver o circo pegar fogo.
O ápice do domingo foi uma galinhada comandada pelo chef Ronie Peterson. Com todo o respeito ao clássico nacional, é fascinante ver como a mistura ancestral de arroz, frango e açafrão é tratada em Tiradentes como uma tese de doutorado acadêmico, cercada de jargões técnicos e aplausos de uma plateia que raramente pega numa panela de pressão em casa.
Não muito longe dali, Juju Guerra servia seu risoni das Gerais com pato e cachaça. A receita sintetiza o espírito do festival: pegue uma massa italiana que imita arroz, misture com uma ave francesa, jogue cachaça nacional e finalize com torresmo para fingir que é rústico. É a globalização culinária em sua versão mais pretensiosa e instagramável.
Para alimentar a massa faminta por status, o comércio local não brinca em serviço. O Bar do Zezé despachou uma tonelada de barriga de porco, enquanto o Ilhote Sul trouxe outra tonelada de frutos do mar de Macaé, culminando na aberração gourmet do ano: pão de queijo recheado com polvo. Uma heresia gastronômica que une mar e montanha, mas que serve perfeitamente para gerar likes no TikTok.
O festival encerrou-se com o lançamento de um guia de enoturismo chancelado pela ONU, celebrando investimentos privados de 20 bilhões de reais. Afinal, nada coroa melhor dez dias de democratização da cozinha do que um brinde com vinhos finos em uma vinícola exclusiva, deixando claro que, no fim das contas, a alta gastronomia ainda é um clube restrito para quem pode pagar a conta.