O Congresso Nacional acaba de demonstrar, mais uma vez, sua impressionante agilidade em estender o tapete vermelho para o capital estrangeiro travestido de modernidade tecnológica. A aprovação do Projeto de Lei 278/2026 pelo Senado, que ressuscita o finado Redata, é o mais novo capítulo da nossa histórica vocação para o colonialismo digital, agora embalado em servidores refrigerados.
Para quem ainda acredita no mito romântico da “nuvem”, vale o choque de realidade: data centers são, essencialmente, galpões gigantescos entupidos de processadores barulhentos que esquentam como o inferno. Eles não produzem inteligência; eles apenas devoram energia e água em escala industrial para que as bigtechs processem seus algoritmos longe de seus próprios quintais.
A generosidade estatal brasileira custará caro. Estamos falando de uma renúncia fiscal estimada em R$ 5,2 bilhões apenas este ano, seguida por mais R$ 1 bilhão anual nos próximos dois ciclos. É um subsídio nababesco arrancado do orçamento público para desonerar a importação de componentes que enriquecem corporações globais sediadas no Hemisfério Norte.
Em troca dessa montanha de dinheiro público, o projeto exige “contrapartidas” que beiram o deboche. As empresas beneficiadas deverão investir irrisórios 2% do valor poupado com a mamata fiscal em solo nacional. Além disso, terão de reservar 10% de sua capacidade para o mercado interno, como se as migalhas digitais fossem um grande prêmio de consolação.
Os defensores da medida ostentam o selo de exigência ecológica como escudo moral. Prometem que as máquinas rodarão com energia limpa e limites rígidos de consumo hídrico. A verdade incômoda, no entanto, é que continuaremos drenando nossos rios e sobrecarregando a rede elétrica nacional para alimentar sistemas de inteligência artificial de terceiros.
O relatório do senador Cid Gomes defende a urgência de facilitar o “treinamento e inferência de modelos de IA”. A narrativa oficial tenta convencer o cidadão comum de que o Brasil precisa dar esmolas fiscais a gigantes trilionárias da tecnologia para não ficar obsoleto, ignorando que o país vira apenas um hospedeiro passivo dessa infraestrutura.
Entidades da sociedade civil tentaram alertar para o óbvio: soberania digital não se compra instalando discos rígidos estrangeiros em território nacional. Sem autonomia científica, segurança real de dados e governança local, o Brasil continua sendo um mero exportador de commodities e um importador passivo de inteligência empacotada.
Enquanto as universidades públicas imploram por verbas básicas de pesquisa e a ciência nacional sobrevive de aparelhos, o Senado decide priorizar o bem-estar tributário de multinacionais que sequer geram empregos em massa nesses templos de concreto e silício.
Chama a atenção o silêncio e a pressa com que o texto tramitou pelas duas Casas do Congresso, driblando debates profundos sobre os impactos socioambientais reais dessas estruturas. Quando os interesses das Big Techs coincidem com a pressa do lobby parlamentar, a burocracia estatal milagrosamente evapora.
Agora, o projeto segue para a caneta do presidente da República. Resta saber se o governo consolidará essa entrega bilionária sob o aplauso do mercado ou se haverá algum vestígio de soberania para frear um subsídio que nos custa água, energia e bilhões de reais em impostos em troca de quase nada.