Um levantamento alarmante realizado por órgãos de fiscalização sanitária e associações de classe revela que o número de complicações decorrentes de procedimentos estéticos invasivos realizados por profissionais não médicos saltou 90% no estado de São Paulo entre 2024 e 2025. O fenômeno, impulsionado pela popularização de técnicas como preenchimentos labiais, aplicação de toxina botulínica e a controversa “bioplastia”, acendeu um alerta vermelho no Conselho Regional de Medicina (CREMESP) e na Vigilância Sanitária estadual, que intensificaram as operações de interdição em clínicas irregulares.
O crescimento das intercorrências está diretamente ligado à expansão do mercado de estética para profissionais sem formação em medicina, como biomédicos, farmacêuticos e esteticistas que, muitas vezes, realizam procedimentos que ultrapassam os limites de suas competências técnicas. Entre as complicações mais graves registradas estão quadros de necrose tecidual, cegueira irreversível (causada por embolia arterial durante preenchimentos faciais) e infecções generalizadas por uso de materiais de procedência duvidosa, como o polimetilmetacrilato (PMMA) em grandes quantidades.

Profissional não qualificado não sabe lidar com problemas – Foto: Freepik / Divulgação
Os Principais Riscos Apontados:
• Necrose por Oclusão Vascular: Ocorre quando o preenchedor é injetado acidentalmente dentro de uma artéria, bloqueando o fluxo sanguíneo para a pele. Sem diagnóstico e intervenção imediata com hialuronidase (enzima que dissolve o produto), o tecido morre em poucas horas.
• Uso de Materiais Proibidos: A substituição de ácido hialurônico por substâncias mais baratas e permanentes, que não podem ser removidas pelo organismo, causando deformidades e reações inflamatórias crônicas.
• Falta de Suporte de Emergência: Muitas clínicas não possuem estrutura para lidar com choques anafiláticos ou complicações agudas, retardando o socorro médico vital.
Para os especialistas, a “banalização” da estética nas redes sociais contribui para o aumento das estatísticas. A busca por preços abaixo da média de mercado e por resultados imediatos faz com que muitos pacientes negligenciem a verificação do registro profissional de quem opera as agulhas. O CREMESP defende que procedimentos que envolvam a quebra da barreira cutânea e a injeção de substâncias devem ser exclusivos de médicos, que possuem treinamento para manejar as complicações sistêmicas que podem surgir durante o ato.
Em resposta ao aumento dos casos, a Assembleia Legislativa de São Paulo (ALESP) discute um projeto de lei que visa endurecer as multas para estabelecimentos que realizam procedimentos invasivos sem a presença de um responsável técnico médico. Enquanto a legislação não muda, a orientação para o consumidor é clara: desconfie de ofertas “milagrosas”, exija a nota fiscal com a descrição do produto utilizado e certifique-se de que o profissional possui habilitação específica para realizar intervenções invasivas na face e no corpo.
O desfecho dessa crise sanitária em 2026 deve passar por uma fiscalização mais rigorosa das plataformas digitais, que hoje funcionam como o principal vitrine para profissionais irregulares. A Secretaria de Saúde de SP reforçou que as denúncias podem ser feitas de forma anônima através do Disque Denúncia da Vigilância Sanitária, e que o foco das próximas semanas será a fiscalização de centros de estética em bairros periféricos e de luxo, onde a incidência de clínicas “fantasmagóricas” que abrem e fecham rapidamente após complicações é maior.