Brasília conseguiu, mais uma vez, transformar um escândalo robusto em um final inconclusivo. Depois de meses de investigação, a CPMI do INSS foi encerrada sem relatório aprovado. O texto do deputado Alfredo Gaspar (União-AL), com mais de 4 mil páginas e indicação de mais de 200 nomes para possível indiciamento, foi derrubado por 19 votos a 12. E junto com ele, caiu também a chance de o Congresso dar uma resposta direta a um esquema que atingiu aposentados em cheio.

O relatório não poupava ninguém. Entre os citados estava o empresário Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, além de políticos, dirigentes e operadores ligados ao esquema dentro do Instituto Nacional do Seguro Social. Um dos nomes centrais era Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “careca do INSS”, apontado como peça-chave na engrenagem que viabilizava descontos indevidos em benefícios.
Os números que circularam na comissão são o tipo de dado que normalmente sustenta investigação não encerra. Quebras de sigilo indicaram que Fábio Luís Lula da Silva movimentou cerca de R$ 19,5 milhões em poucos anos. Depoimentos colhidos na CPMI apontaram ainda para repasses mensais que chegariam à casa de R$ 300 mil, além de valores totais que poderiam ultrapassar R$ 25 milhões. Tudo isso sob análise de órgãos como a Polícia Federal.

E aí vem a pergunta que não sai da mesa: se havia esse volume de informação, por que o relatório foi rejeitado? Se durante meses houve discurso apontando responsabilidades e ampliando o alcance político do caso, por que, na hora decisiva, nomes como Jaques Wagner (PT-BA), Humberto Costa (PT-PE), Randolfe Rodrigues (Rede-AP), Lindbergh Farias (PT-RJ) e Paulo Pimenta (PT-RS) votaram contra o avanço do texto?

Do outro lado, parlamentares como Magno Malta (PL-ES), Rogério Marinho (PL-RN), Damares Alves (Republicanos-DF), Bia Kicis (PL-DF) e Marcel van Hattem (Novo-RS) votaram a favor do relatório, defendendo a continuidade das investigações e o encaminhamento dos indiciamentos. O placar final, no entanto, mostrou que a maioria preferiu encerrar o assunto ali mesmo.

O presidente da comissão, senador Carlos Viana, e deputados em entrevista.
Fonte: Agência Senado
O resultado prático é um daqueles cenários típicos de Brasília: ninguém foi oficialmente responsabilizado pela CPMI, ninguém foi formalmente inocentado, e o material produzido perde força política por não ter sido aprovado. O relatório até será enviado ao Supremo Tribunal Federal e à Procuradoria-Geral da República, mas sem o peso institucional que uma aprovação no Congresso traria.

Deputados da base do governo chegaram a apresentar relatório alternativo que pedia indiciamento de Jair Bolsonaro (PL) (Foto: Marcos Oliveira/Agência Senado)
No fim, o que fica é o contraste. Durante meses, o discurso político apontava culpados, ampliava suspeitas e, em muitos momentos, tentava direcionar o debate. Mas quando chegou a hora de transformar isso em ato concreto voto, responsabilização, continuidade a decisão foi outra. E isso levanta a pergunta mais incômoda de todas: se havia tanta convicção antes, por que faltou agora?
Como votou cada parlamentar na CPMI do INSS
✅ Votaram a favor do relatório (12)
PL
* Magno Malta (ES)
* Márcio Bittar (AC)
* Izalci Lucas (DF)
* Rogério Marinho (RN)
* Coronel Fernanda (MT)
* Coronel Chrisóstomo (RO)
* Bia Kicis (DF)
NOVO
* Eduardo Girão (CE)
* Marcel van Hattem (RS)
* Adriana Ventura (SP)
REPUBLICANOS
* Damares Alves (DF)
UNIÃO BRASIL
* Alfredo Gaspar (AL)
❌ Votaram contra do relatório (09) PT ( Partido dos trabalhadores)
* Jaques Wagner (BA)
* Humberto Costa (PE)
* Rogério Carvalho (SE)
* Augusta Brito (CE)
* Teresa Leitão (PE)
* Rogério Correia (MG)
* Alencar Santana (SP)
* Paulo Pimenta (RS)
* Lindbergh Farias (RJ)
Se Jair Bolsonaro era apontado como o “cérebro” do esquema pela própria base governista, por que o PT, liderado por nomes como Paulo Pimenta, votou para enterrar a CPMI do INSS na hora de aprofundar as investigações?
❌ Outros partidos que também votaram contra do relatório (10)
PSD
* Eliziane Gama (MA)
* Jussara Lima (PI)
OUTROS
* Soraya Thronicke (Podemos – MS)
* Randolfe Rodrigues (Rede – AP)
* Meire Serafim (União – AC)
* Átila Lira (PP – PI)
* Orlando Silva (PCdoB – SP)
* Ricardo Ayres (Republicanos – TO)
* Neto Carletto (Avante – BA)
* Dorinaldo Malafaia (PDT – AP)