Filha de pais analfabetos, Margarida Minervina, 53 anos, saiu de São Julião — município piauiense de pouco mais de 6 mil moradores, a 400 km de Teresina — carregando um único objetivo: romper o ciclo do analfabetismo que marcou sua família. No Distrito Federal, não apenas conseguiu. Tornou-se referência ao impactar diretamente a vida de mais de 2,5 mil crianças e adolescentes por meio da Associação Despertar Sabedoria, no Sol Nascente.
A trajetória, no entanto, foi construída à base de resistência. Quando chegou à região, em 2001, Margarida encontrou praticamente o mesmo cenário de precariedade que havia deixado no interior do Piauí. “Diziam que a gente era doido de vir para cá, porque só tinha mato e muriçoca. Não tinha água, não tinha luz. No primeiro dia em que dormi aqui com meus três filhos, a gente se embrulhou no lençol e deixava só o olho de fora, senão os pernilongos carregavam”, lembra.
Hoje, 25 anos depois, o Sol Nascente/Pôr do Sol é oficialmente uma Região Administrativa (RA). As mudanças estruturais que transformaram o território também redefiniram a rotina dos moradores — e fortaleceram a atuação de projetos como o de Margarida. “A diferença é enorme. Hoje tem asfalto, internet, água, luz, infraestrutura. Você sai de casa, pega um ônibus e não volta com o tênis cheio de lama”, compara. “Tenho orgulho de morar aqui. Amo minha cidade e agradeço cada poste, cada pedaço de asfalto, cada escola que chegou.”
Investimentos que mudam paisagens — e vidas

Com a oficialização como RA, vieram os investimentos. As novas regiões já receberam mais de R$ 568 milhões em obras concluídas ou em andamento. O pacote vai desde intervenções simples — reforma de praças, instalação de luminárias e abrigos de ônibus — até obras estruturantes: pavimentação, construção de calçadas, drenagem de águas pluviais, além de unidades de saúde, delegacias, escolas e creches.
O Sol Nascente/Pôr do Sol ganhou sua própria rodoviária. Estão em construção um Centro Educacional (CED) na Colônia Agrícola Vereda Grande, em Arniqueira, e uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) em Água Quente. Em Arapoanga, o próximo passo é a implantação de um Centro de Educação da Primeira Infância (Cepi), já em fase de licitação.
Segundo o ex-secretário de Governo, José Humberto Pires de Araújo, a criação de uma RA permite um planejamento urbano mais coerente com a realidade local. “Você faz o perfil da comunidade, levanta as necessidades e planeja a cidade como se fosse nova. O serviço público chega com mais rapidez e consegue atender melhor. As pessoas precisam ter condição de ir e vir, estudar, ter saúde, assistência social, segurança e emprego no próprio território, reduzindo a dependência de deslocamentos longos”, explica.
Quando o governo passa a enxergar quem sempre esteve lá
A proximidade entre governo e população é outro ponto decisivo, afirma José Humberto. “Uma administração regional bem estruturada pensa a cidade. A população passa a ter onde recorrer, com quem conversar, para onde levar demandas.”
Essa sensação de pertencimento é nítida para Francisca Maria de Almeida, 63 anos, agente de saúde e moradora de Água Quente. Ela chegou ao local 28 anos atrás, quando a área ainda era praticamente isolada geograficamente e dependente do Recanto das Emas. “A gente era o quintal de lá”, resume.
A realidade mudou com a criação da RA. “Hoje temos sinalização, o SLU está sempre presente, temos creches, colégio, ônibus e iluminação onde antes não tinha nada”, diz Francisca. Mas, para ela, a transformação vai além da infraestrutura:
“Agora o governo sabe que a gente existe. Que estamos aqui. Que somos uma cidade. E isso é o melhor de tudo.”
A história de Margarida e de milhares de moradores do Sol Nascente/Pôr do Sol e de Água Quente mostra que políticas públicas estruturadas — quando chegam — têm potência para mudar trajetórias individuais e coletivas. E reafirma a importância de olhar para regiões que, por décadas, existiram apenas à margem do mapa oficial, mas sempre pulsaram como cidade.