Documentos técnicos recém-divulgados expõem uma situação alarmante nas instalações de armazenamento de rejeitos radioativos no estado do Rio de Janeiro. Localizados em unidades que deveriam ser temporárias, mas que permanecem interditadas desde 2019, esses depósitos guardam atualmente 103 m³ de material nuclear sem uma solução definitiva à vista. O volume, composto principalmente por resíduos de baixa e média atividade como ferramentas, roupas e equipamentos utilizados em usinas e na medicina nuclear , está condicionado em estruturas que apresentam sinais claros de falhas estruturais e corrosão.

A interdição dessas áreas, ocorrida há sete anos por determinação de órgãos ambientais e de fiscalização nuclear, deveria ter sido o primeiro passo para a transferência do material. Contudo, relatórios de inspeção obtidos nesta quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026, indicam que a paralisação do fluxo de saída agravou as condições de segurança. Há registros de infiltrações em coberturas e fissuras em pavimentos de concreto, o que eleva o risco de contaminação do solo em caso de vazamento de líquidos lixiviados ou falha nos recipientes de contenção primária.
Os Gargalos do Armazenamento Nuclear
A gestão desses resíduos enfrenta três desafios críticos que impedem a resolução do problema:
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Saturação das Unidades: Os depósitos estão operando no limite de sua capacidade volumétrica, dificultando o remanejamento interno para reparos emergenciais.
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Inexistência do Repositório Nacional: O Brasil ainda não concluiu a construção de um Repositório Nacional de Rejeitos de Baixa e Média Atividade, o que deixa as unidades fluminenses em um “limbo” logístico permanente.
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Dificuldades Orçamentárias: Cortes sucessivos em programas de infraestrutura nuclear reduziram a verba destinada à manutenção preventiva dos galpões interditados.
Especialistas em segurança nuclear alertam que, embora o material armazenado não possua o mesmo nível de periculosidade que o combustível gasto de reatores, ele exige monitoramento constante por décadas. A exposição prolongada desses resíduos a ambientes com falhas estruturais pode gerar custos de remediação muito superiores aos de uma transferência planejada. Além disso, a proximidade de algumas dessas instalações com áreas urbanas ou ecossistemas sensíveis aumenta a pressão sobre a Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) para que apresente um cronograma de esvaziamento.
Em resposta aos documentos, órgãos reguladores afirmaram que o monitoramento radiológico nas áreas externas dos depósitos permanece dentro dos limites seguros e que não houve vazamento de radiação detectado até o momento. No entanto, a admissão de que as estruturas físicas estão comprometidas acendeu um alerta no Ministério Público Federal (MPF), que estuda mover uma ação para obrigar a União a acelerar a construção de um local de descarte final. A meta do setor nuclear era ter uma solução definitiva até 2025, prazo que já foi oficialmente descumprido.
A situação no Rio de Janeiro serve como um microcosmo do desafio global de gerenciar o legado da era atômica. Enquanto o país planeja a expansão de sua matriz nuclear com a retomada de obras de grandes usinas, o “passivo” radioativo acumulado nas instalações antigas permanece como uma questão de segurança nacional não resolvida. A transparência trazida por esses novos documentos é vista por ambientalistas como um passo necessário para tirar o tema do sigilo burocrático e forçar um debate público sobre os custos ambientais da energia nuclear no Brasil.