O chatbot Gemini, desenvolvido pelo Google, registrou a maior incidência de respostas voltadas à deslegitimação do processo eleitoral brasileiro entre as plataformas de inteligência artificial analisadas. A conclusão faz parte da segunda etapa de um estudo conduzido pelo InternetLab, em colaboração com o LabDados/FGV e a Rede Conhecimento Social (ReCoS), que simulou interações sobre o pleito de 2026 em oito ferramentas distintas.
Os dados revelam que uma em cada quatro conversas simuladas com o Gemini apresentou questionamentos diretos aos resultados das eleições, alcançando um índice de 25%. O levantamento, que somou 16.320 turnos de perguntas e respostas, destaca que esse comportamento se manifestou predominantemente quando os usuários solicitavam a criação de conteúdos específicos para compartilhamento em redes sociais.
Disparidade entre plataformas de inteligência artificial
A pesquisa evidenciou um cenário heterogêneo no comportamento dos sistemas de IA. Enquanto o Gemini lidera o ranking de deslegitimação, a Meta AI ocupou a segunda posição, com 12,5% de ocorrências. Outras ferramentas apresentaram índices significativamente menores, como a DeepSeek (3%), Google AI Mode (2%), Claude, Copilot e Grok (1% cada). O ChatGPT, por sua vez, não registrou episódios dessa natureza no recorte analisado.
Heloisa Massaro, diretora do InternetLab, aponta que a preocupação central reside na diferença de desempenho entre as plataformas. A especialista ressalta que, embora o comportamento ocorra sob demanda do usuário, a alta frequência no Gemini — uma das ferramentas mais utilizadas no país — levanta questões importantes sobre a segurança e a responsabilidade das empresas no desenvolvimento de seus modelos de linguagem.
Argumentos sem contexto e riscos à integridade
O estudo alerta que o problema não reside apenas na menção de críticas ao sistema eleitoral, mas na ausência de contextualização técnica. As respostas fornecidas pelos chatbots frequentemente omitem mecanismos fundamentais de auditoria, como os testes públicos de segurança, a inspeção do código-fonte e a fiscalização realizada por partidos, universidades e órgãos como o Ministério Público.
Ao apresentar pontos frágeis sobre a votação sem o devido contraponto informativo, as IA’s podem contribuir para a disseminação de narrativas que minam a confiança nas instituições. Especialistas e o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) reiteram que, embora o sistema não emita comprovante físico, a transparência é garantida por boletins públicos e auditorias de integridade que permitem a conferência independente dos votos.
Ajustes de segurança e salvaguardas tecnológicas
A segunda fase do estudo observou uma redução expressiva de conteúdos problemáticos em algumas plataformas, como o ChatGPT, o que pesquisadores atribuem à implementação de mecanismos de salvaguarda, conhecidos como guardrails. Esses ajustes são projetados para impedir que as IA’s gerem conteúdos sensíveis ou que violem normas de integridade eleitoral.
Em resposta ao levantamento, a Meta declarou estar comprometida com a proteção da integridade eleitoral e em conformidade com as resoluções do TSE. Google, OpenAI e Microsoft optaram por não se pronunciar, enquanto Anthropic e DeepSeek não possuem representação de relações públicas no Brasil. O estudo, disponível para consulta em InternetLab, busca fomentar o debate sobre o impacto dessas tecnologias no cenário democrático.