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“FAMÍLIA DE ALUGUEL ” – A mercantilização do afeto.

“FAMÍLIA DE ALUGUEL ” – A mercantilização do afeto.

No Japão contemporâneo, a solidão tornou-se um nicho de mercado, é sobre essa premissa fascinante e melancólica que se desenrola “Família de Aluguel” (Rental Family), o novo longa da diretora Hikari.

Estrelado por um subestimado e contido Brendan Fraser, o filme caminha na corda bamba entre a comédia de erros e o drama existencial, questionando até onde vai a performance quando o que está em jogo é o coração humano.

Fraser interpreta Phillip, um ator norte-americano decadente e desiludido que vive em Tóquio, sem perspectivas na carreira tradicional, ele encontra uma ocupação inusitada: trabalhar para uma agência de “famílias de aluguel”, sua função é interpretar papéis sociais para estranhos, seja como um pai ausente em um jantar de reconciliação ou um marido exemplar para manter as aparências em um evento social, o conflito central surge quando as barreiras entre o roteiro contratado e a realidade começam a ruir.

 Phillip se vê envolvido emocionalmente com Mia (interpretada pela estreante Shannon Mahina Gorman), uma jovem que precisa de uma figura paterna, e desenvolve uma conexão profunda com Kikuo (Akira Emoto), um ator veterano que luta contra a perda de memória.

O grande trunfo de Hikari é não transformar a trama em uma “comédia de peixe fora d’água” caricata, a direção opta por um tom naturalista, explorando a estética chamativa, porém isoladora, de Tóquio, o filme mergulha em temas espinhosos, como o severidade masculina do japonês e o tabu em torno da saúde mental.

Brendan Fraser entrega uma atuação despida de vaidade, seu Phillip é um homem que, por ter falhado em construir laços reais em sua própria vida, encontra redenção ao “fingir” ser o que os outros precisam, é uma metáfora poderosa para a própria profissão do ator e para a sociedade hiperconectada de 2026, onde as interações costumam ser mediadas e performáticas.

Embora o ritmo possa parecer lento para quem busca uma narrativa de Hollywood tradicional, “Família de Aluguel” compensa com honestidade emocional, o elenco de apoio, com destaque para Takehiro Hira (Xógum) e Mari Yamamoto (Pachinko), ancora a história em uma realidade culturalmente rica.

O filme nos deixa com uma pergunta desconfortável: em um mundo onde se pode alugar uma família, o que resta de autêntico em nossos sentimentos?

NOTA 4.5/5

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