Se o cinema é, como dizia Godard, a verdade a 24 quadros por segundo, em The Whole Bloody Affair, Tarantino decide que essa verdade deve ser escrita com sangue e editada com a precisão de uma katana Hattori Hanzo, esta versão de quatro horas e vinte minutos que funde os dois volumes lançados em 2003 e 2004, não é apenas um “corte do diretor”; é a restauração de um ecossistema estético que a distribuição comercial ousou fragmentar.
Diferente da experiência fatiada, onde o Vol. 1 era um deleite visual de artes marciais e o Vol. 2 um faroeste dialógico, a versão integral revela uma simetria narrativa mais profunda, a transição entre o massacre na Casa das Folhas Azuis e o confronto árido no deserto de Mojave perde o caráter de “continuação” para se tornar um segundo ato necessário.
A grande joia desta versão é a sequência animada da origem de O-Ren Ishii, estendida e ainda mais visceral, e a famigerada luta contra os “88 loucos”, agora apresentada em cores vibrantes (em vez do preto e branco da versão americana), o que transforma a cena em uma pintura abstrata.

Uma Thurman entrega aqui o que pode ser considerado o papel definitivo da sua carreira, no corte integral, o arco de Beatrix Kiddo ganha gravidade, não se trata apenas de uma mulher atravessando uma lista de nomes; é a desconstrução do mito da “máquina de matar” em prol da reconexão com a maternidade, o silêncio entre as batalhas pesa mais quando assistimos à obra de um fôlego só.

Tarantino opera no que chamamos de pós-modernismo de colagem, ele não apenas cita o cinema exploitation, o chanbara japonês e o spaghetti western de Sergio Leone; ele nos entrega tudo isso em simbiose.

Kill Bill: The Whole Bloody Affair é a prova de que Tarantino é, acima de tudo, um historiador de imagens, ele pega a história do cinema e cria uma sinfonia nova, é excessivo? Sim! É autoindulgente? Sem dúvida. Mas é também o ápice de um cinema que atropela, e não esse cinema frouxo atual que pede desculpas por existir, é a celebração do excesso como forma de arte.
Nota 5/5