A machosfera, ecossistema online composto por comunidades que compartilham crenças sobre masculinidade, misoginia e vitimização masculina, precisa ser tratada como um tema de saúde pública. A recomendação foi destacada em um artigo de opinião publicado na revista científica The Lancet, escrito por especialistas em questões de gênero.
De acordo com os autores da publicação, apenas a regulamentação das plataformas digitais não é suficiente para conter o avanço desse fenômeno. É necessário adotar uma estratégia integrada que envolva investimentos em educação, saúde mental e oportunidades econômicas voltadas para os meninos.
Pressões sociais e impactos na saúde mental
O estudo aponta que diversos fatores agravam a vulnerabilidade do público masculino diante das exigências da sociedade. Entre eles estão o afastamento escolar, o aumento do encarceramento, crises econômicas e a dificuldade de inserção no mercado de trabalho.
Essas barreiras intensificam a pressão para que homens correspondam aos padrões tradicionais de masculinidade hegemônica, exigindo força e o papel de único provedor. O sofrimento gerado por essa cobrança, somado à falha dos sistemas de apoio social, resulta em quadros graves de saúde mental e sofrimento psicológico.
Paralelo com indústrias de tabaco e ultraprocessados
Os pesquisadores traçam um paralelo entre o modelo de negócios da machosfera e setores como o de tabaco e alimentos ultraprocessados. Plataformas e criadores de conteúdo utilizam argumentos de responsabilização individual para lucrar com mentorias, cursos e produtos, esquivando-se dos impactos reais gerados.
Em vez de apontar para falhas estruturais, o ecossistema online atribui as dificuldades dos homens ao feminismo e às mulheres. A solução oferecida por esses grupos costuma ser voltada para o ganho financeiro próprio por meio de coaching e disciplina pessoal, ignorando a necessidade de debates e políticas coletivas.