A experiência da maternidade é frequentemente romantizada como um processo seguro e previsível. No entanto, para a médica Cecília Emerick, a chegada de sua filha Stela revelou uma face sombria e pouco discutida da obstetrícia. Em um relato corajoso, ela descreve como uma intercorrência rara transformou o momento do parto no episódio mais doloroso de sua trajetória pessoal e profissional.
A fragilidade do parto e a rotura uterina
Cecília, que já havia passado por gestações tranquilas anteriormente, enfrentou uma rotura uterina durante o nascimento de Stela. Embora a condição tenha uma incidência baixa, variando entre 0,05% e 1% das gestações, suas consequências podem ser devastadoras. A falta de oxigenação do bebê e a hemorragia materna severa marcaram o início de uma jornada marcada pela internação em unidades de terapia intensiva distintas.
O impacto do trauma foi agravado pela falta de sensibilidade no ambiente hospitalar. Cecília relata que, mesmo fragilizada por cirurgias de emergência e pela perda do útero, era pressionada a manter contato físico com a filha na UTI neonatal. A vivência expôs a necessidade urgente de humanização no atendimento a mães que enfrentam o luto perinatal, uma lacuna que apenas recentemente começou a ser endereçada por políticas públicas como a lei 15.139/2025.
Decisões difíceis e cuidados paliativos
Como médica paliativista, Cecília compreendeu rapidamente a extensão dos danos neurológicos irreversíveis de Stela. Após receber informações contraditórias da equipe médica, ela tomou a decisão consciente pela extubação paliativa. Para ela, essa escolha foi um ato de proteção, permitindo que a filha partisse em um ambiente acolhedor, nos braços da família, após 22 dias de vida.
A experiência de Cecília é um lembrete de que a medicina, apesar de todos os avanços, não é infalível. Ela destaca que o sofrimento mais profundo não residiu na morte da filha, mas no momento em que a criança nasceu sob condições de dor que a mãe não pôde impedir. Esse entendimento impulsionou a criação da Casa de Stela, empresa voltada para a capacitação de profissionais e a humanização do cuidado em momentos de fim de vida.
Ressignificação e a continuidade da família
O luto, inicialmente solitário e avassalador, transformou-se em um propósito de vida. Após a perda, Cecília e seu marido buscaram alternativas para aumentar a família. Em um gesto de solidariedade e amor, a mãe de Cecília, Márcia, gestou um embrião do casal aos 66 anos. Lara nasceu em 27 de setembro de 2022, sem intercorrências, trazendo um novo capítulo à história da família.
Hoje, Cecília integra Stela em sua narrativa familiar cotidiana, ao lado de seus outros dois filhos, Olavo e Lara. A médica reforça que sua relação com a vida foi profundamente alterada, consolidando a importância de acolher o sofrimento alheio com a mesma dignidade que buscou para sua filha. Para mais informações sobre o tema, consulte o portal Nações Unidas.