Em um cenário onde a presença digital se tornou sinônimo de relevância comercial, uma parcela dos profissionais de saúde opta por seguir na contramão. Enquanto o mercado médico observa uma corrida por visibilidade em plataformas como Instagram e TikTok, alguns especialistas mantêm uma postura de distanciamento, priorizando a prática clínica tradicional em detrimento da exposição virtual.
O dermatologista Emerson Vicente Alves, 53, exemplifica essa resistência. Sem perfis em redes sociais, o médico observa com ceticismo a pressão por autoridade digital. Para ele, a qualidade da formação e a capacitação técnica devem ser os pilares da carreira, ironizando a ideia de que o sucesso profissional estaria condicionado ao engajamento em plataformas digitais.
A transição para o marketing médico e a regulação do setor
A transformação da medicina em um setor que utiliza o ambiente virtual como vitrine é um fenômeno recente e crescente. Pacientes utilizam cada vez mais essas ferramentas como critério de escolha para consultas e procedimentos, forçando médicos a adaptarem suas estratégias de comunicação para não perderem espaço no mercado.
Segundo Estevam Rivello, segundo secretário do Conselho Federal de Medicina (CFM), a entidade reconhece essa mudança de paradigma. A partir de março de 2024, o CFM passou a permitir a divulgação de serviços médicos sob novas diretrizes, buscando organizar uma prática que, anteriormente, operava em uma zona cinzenta de regulação.
O papel das novas normas éticas na comunicação digital
Antes da atualização normativa de 2024, a atuação dos médicos nas redes era regida apenas pelo Código de Ética Médica, o que gerava insegurança jurídica e dúvidas sobre os limites da autopromoção. A nova resolução trouxe clareza sobre pontos controversos, estabelecendo parâmetros mais específicos para a publicidade médica.
Katiuscia Fogaça, médica, publicitária e integrante da Codame (Comissão de Divulgação de Assuntos Médicos) do CRM-PR, destaca que a internet se consolidou como um cartão de visitas indispensável. A regulação atual reflete a necessidade de adaptar as relações médico-paciente à realidade virtual, garantindo que a comunicação digital ocorra dentro de padrões éticos rigorosos.
Entre a obrigatoriedade profissional e a escolha pessoal
Apesar da crescente profissionalização do marketing médico, com muitos profissionais contratando assessorias especializadas, não existem dados oficiais sobre a adesão da categoria às redes. O CFM não exige que médicos informem seus perfis digitais no cadastro profissional, e tentativas de criar um selo de verificação oficial em parceria com a Meta não prosperaram.
O resultado é um ecossistema dividido. De um lado, médicos que encaram as redes como uma obrigação estratégica para a sobrevivência no mercado; de outro, profissionais que, como Alves, resistem à lógica da exposição. Especialidades como a dermatologia, que lidam frequentemente com procedimentos estéticos, seguem sendo as que mais investem na produção de conteúdo, mantendo o debate sobre os limites da ética e da imagem profissional em constante ebulição. Para mais detalhes sobre as normas, consulte o Conselho Federal de Medicina.