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O banquete dos vigaristas: a ilusória segurança digital do brasileiro

O Brasil é o país do futuro, desde que esse futuro seja um grande e lucrativo balcão de negócios para estelionatários digitais. A recém-divulgada pesquisa do Cetic.br escancara o óbvio que insistimos em ignorar entre um meme e outro: quase um terço dos internautas tupiniquins já serviu de alvo para golpistas, e um em cada cinco de fato caiu no conto do vigário virtual. São 45 milhões de almas flutuando em um limbo de vulnerabilidade, provando que a nossa inclusão digital serve mais para engordar contas de laranjas do que para emancipar cidadãos.

A engenharia social por aqui não exige nenhum gênio da lâmpada da computação quântica. Basta um “Oi, mãe, mudei de número” no WhatsApp para que o brasileiro médio, movido pelo desespero e pela pressa cega, transfira suas economias via Pix. Os aplicativos de mensagens lideram o ranking da malandragem com 84% das abordagens, seguidos de perto pelo bom e velho telefonema falso. Sobrevivemos à hiperinflação histórica apenas para capitular diante de um SMS mal redigido.

Existe um fetiche nacional de que ter um smartphone na mão equivale a ter letramento digital. Ledo engano. A pesquisa mostra que quem acessa a rede exclusivamente pelo celular é a presa mais fácil para sites e aplicativos falsos. O tamanho reduzido da tela parece proporcional à nossa capacidade de discernimento, limitando a visão periférica de quem clica em qualquer promoção absurda que promete um tostão por um milhão.

O estrago, contudo, deixou de ser meramente financeiro e agora flerta com o existencial. Perder dinheiro é péssimo, mas ter o acesso ao Gov.br sequestrado por um golpista operando de dentro de uma penitenciária é a humilhação suprema. O cidadão perde a identidade digital, o acesso aos serviços públicos fundamentais e ganha, de brinde, um estresse familiar capaz de desestruturar qualquer almoço de domingo.

Como tudo neste país, o abismo social dita o tamanho do prejuízo. A classe média alta e escolarizada finge superioridade, mas quem realmente sangra nas mãos das quadrilhas virtuais é a parcela menos instruída da população. Sem as habilidades digitais mais básicas para farejar uma fraude, o trabalhador perde o pouco que tem. Jogar essa massa hiperconectada e desarmada na arena da internet sem qualquer preparo é um crime de omissão social.

Para coroar a esquizofrenia coletiva, surge a inteligência artificial generativa. Temos pânico de que as grandes corporações americanas roubem nossa privacidade, mas não hesitamos em usar o ChatGPT como analista de plantão, desabafando sobre frustrações amorosas, sintomas de doenças bizarras e até segredos financeiros. É a preocupação teórica de mãos dadas com a ingenuidade prática mais escancarada.

No lado das empresas, a hipocrisia ganha verniz corporativo. Quase 70% das companhias guardam dados sensíveis como biometria e prontuários de saúde, mas apenas pífios 16% se deram ao trabalho de nomear um encarregado de proteção de dados (DPO). A LGPD, para a imensa maioria do empresariado nacional, continua sendo aquela lei bonita “para inglês ver”, enquanto os dados dos clientes vazam em fóruns obscuros da deep web.

O setor público corre atrás do prejuízo em ritmo de tartaruga manca. Embora prefeituras pequenas celebrem a criação de políticas de segurança no papel, a realidade dos sistemas municipais é de chorar. A facilidade com que bancos de dados governamentais são invadidos mostra que a nossa infraestrutura pública de TI é mantida unida por cuspe, boa vontade e senhas óbvias anotadas em post-its.

Até nas escolas públicas a paranoia digital virou desculpa para a inércia. Gestores escolares justificam a não adoção de ferramentas educacionais modernas por medo de vazamentos de dados dos alunos. É um raciocínio curioso: prefere-se manter a educação no século dezenove a investir em segurança da informação séria, punindo o aprendizado sob o pretexto de uma proteção que eles próprios não sabem como executar.

A conclusão oficial do Comitê Gestor da Internet tenta nos consolar dizendo que não podemos culpar a vítima pela própria vulnerabilidade. Bonito no papel, trágico na prática. Enquanto o Estado finge fiscalizar e as empresas fingem proteger, o internauta brasileiro segue navegando de peito aberto em um mar de tubarões digitais, rezando para que o próximo link falso seja apenas um vírus bobo e não a ruína definitiva de sua vida financeira.

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