O cardápio de notícias diário é sempre um banquete indigesto de contradições globais. Enquanto o hemisfério norte desenvolve fórmulas milagrosas para prolongar a vida de quem come demais, o resto do planeta se vira entre a ignorância medieval, o fogo purificador e a burocracia estatal para decidir como e quando tem o direito de morrer.
Comecemos pela grande vitória do sedentarismo ocidental: os Estados Unidos aprovaram um comprimido que reduz em até 60% o colesterol ruim. É o triunfo supremo da indústria farmacêutica sobre a força de vontade humana, permitindo que o cidadão de alto risco cardiovascular continue ignorando a esteira e o brócolis com a consciência limpa e o estômago cheio.
A expectativa do mercado é que o formato oral melhore a chamada “adesão ao tratamento” um eufemismo simpático para admitir que o ser humano médio é preguiçoso demais para tomar uma injeção periódica, mas engole uma pílula mágica sem piscar se isso significar manter o hambúrguer intocado na dieta diária.
Caso a pílula do colesterol falhe a longo prazo e o corpo finalmente reclame o preço do abuso, a França já prepara uma saída elegante e devidamente regulamentada. O parlamento francês aprovou a legalização da eutanásia para adultos com doenças incuráveis sob condições específicas, provando que a civilidade europeia exige etiquetas claras até para o último suspiro.
Claro que o direito de morrer não escaparia das garras da burocracia; o texto ainda passará pelo crivo do Conselho Constitucional. No fim das contas, na Europa desenvolvida, você só tem permissão para abreviar seu sofrimento intolerável se o Estado carimbar e autorizar a sua certidão de óbito com antecedência.
Bem longe dos debates filosóficos e sofisticados dos cafés parisienses, a República Democrática do Congo opera em outra frequência de desespero. Lá, uma multidão enfurecida invadiu um hospital de ebola após a morte de uma parturiente, forçando médicos e doentes altamente infectados a fugirem para salvar a própria pele.
O incidente expõe a profunda fenda de desconfiança entre a população faminta e um sistema de saúde precário, em um país que já enfrenta seu 17º surto de ebola. Quando a ciência falha em entregar o básico do básico, o misticismo e a violência tornam-se os únicos analgésicos disponíveis para a frustração popular.
Enquanto o Ocidente monitora obsessivamente as taxas de LDL no sangue, os congoleses contam mais de 2 mil casos e quase 800 mortos pela peste desde maio. É o contraste obsceno de um planeta disfuncional, onde alguns morrem pela falta absoluta de saneamento e outros pelo excesso de gordura trans.
A tragédia da negligência estatal também fez escala na Argélia, onde um incêndio em um orfanato na periferia da capital matou 11 pessoas, a maioria crianças. Vizinhos e equipes de resgate precisaram romper grades de ferro para tentar salvar as vítimas, revelando que a segurança contra incêndios nesses locais é tão frágil quanto as promessas de proteção social.
Para fechar o espetáculo com o cinismo habitual das autoridades, o primeiro-ministro argelino visitou os sobreviventes e o presidente manifestou solidariedade. É a velha coreografia do poder: notas de pesar para quem morre queimado na pobreza, pílulas caras para quem enfarta na riqueza e um protocolo assinado para quem quer morrer em paz.