O Brasil descobriu que o vício digital é a nova galinha dos ovos de ouro do orçamento público. Em uma virada de mestre digna dos melhores cassinos de Las Vegas, o Ministério da Justiça resolveu que o dinheiro perdido por milhões de brasileiros em apostas ilegais agora vai financiar a nossa segurança. É a perfeita reciclagem do desespero nacional.
Estamos falando de uma bolada estimada em mais de R$ 1 bilhão. Esse montante colossal, extirpado do bolso de cidadãos que sonhavam com o enriquecimento rápido através de cliques em telas de celular, estava bloqueado e inacessível, flutuando no limbo da ilegalidade regulatória.
Para resolver o problema das contas públicas e fingir que combate a jogatina, o governo publicou novas regras nesta semana. Trata-se de um manual burocrático que desenha uma verdadeira passarela para que esses recursos irregulares desfilem direto para as mãos do Estado.
O destino final dessa dinheirama confiscada? O Fundo Nacional de Segurança Pública. A lógica é quase poética, se não fosse trágica: usamos a grana que faliu famílias inteiras para comprar viaturas que, teoricamente, vão proteger essas mesmas famílias nas ruas.
O discurso oficial do ministério, claro, é envelopado com aquele verniz de salvação social. Eles chamam isso de “dar condições para transformar valores de atuação ilegal em investimentos na proteção da população”. É a alquimia estatal transformando o vício em virtude fardada.
Os governadores de estado e o Distrito Federal já estão salivando com a possibilidade de receber um pedaço desse bolo. Afinal, a segurança pública clama por recursos faz décadas, e nada melhor do que uma febre de apostas fora-da-lei para tapar os buracos do caixa governamental.
Quem vai operar essa roleta burocrática é a Secretaria Nacional de Segurança Pública, a Senasp. Caberá a esse órgão a nobre e exaustiva tarefa de triar a dinheirama e carimbar a passagem do dinheiro sujo rumo à santificação dos cofres públicos.
Se a Senasp farejar outras falcatruas no meio do caminho, repassa o bastão para as polícias, Receita Federal ou Ministério Público. É a burocracia preventiva funcionando como um grande carrossel de transferência de responsabilidade institucional.
A verdade incômoda que ninguém quer admitir é que o Estado falhou miseravelmente em conter a epidemia das apostas. Sem capacidade de prevenir o estrago social, o governo agora se contenta em agir como o limpador de mesas que recolhe as fichas esquecidas.
No grande cassino em que se transformou o Brasil contemporâneo, os apostadores perdem tudo, os operadores ilegais fogem com o que podem, e o governo recolhe as sobras para se autopromover. No fim das contas, a banca sempre vence.