A diplomacia do tapinha nas costas acaba de receber uma fatura de 25% de acréscimo. A partir de 22 de julho, os Estados Unidos decidiram que o livre mercado é ótimo, desde que não seja com produtos brasileiros concorrendo em seu quintal. A nova tarifa adicional é o clássico balde de água fria na retórica das relações bilaterais harmoniosas.
O golpe cirúrgico de Washington mira pesado na economia real: calçados, roupas novas, máquinas agrícolas, borracha e até o açúcar orgânico entraram na lista de punições. Basicamente, os americanos decidiram taxar o esforço do trabalhador brasileiro que racha o pé na fábrica ou no campo para exportar valor agregado.
Por outro lado, a lista de exceções revela o pragmatismo egoísta de sempre. Aviões da Embraer, metais preciosos, ferro, aço e o sagrado cafézinho matinal ficaram de fora. Afinal, o império precisa continuar funcionando e há insumos que eles simplesmente não conseguem substituir sem que doa no próprio bolso.
A justificativa para o tarifaço, cozinhada em uma investigação que durou um ano pelo Escritório do Representante de Comércio dos EUA, chega a ser cômica. Concluíram que as políticas brasileiras ‘prejudicam’ o mercado norte-americano, como se a maior superpotência do planeta fosse uma indefesa startup ameaçada pela concorrência desleal do Hemisfério Sul.
Mas a piada melhora quando olhamos os ‘culpados’ apontados pelo relatório de Washington. No topo da lista de ameaças estão o Pix e as leis anticorrupção brasileiras. Sim, você não leu errado: a eficiência do sistema de pagamento instantâneo brasileiro, que humilha o jurássico sistema bancário americano, virou uma ‘ofensa comercial’ intolerável.
Reclamar de leis anticorrupção como barreira comercial também é de um cinismo monumental. É quase como se os negociadores americanos estivessem exigindo, nos bastidores, o direito sagrado de operar sob as velhas e nebulosas regras do suborno institucionalizado para garantir seus contratos.
Do lado de cá, o governo brasileiro reagiu com a habitual pirotecnia verbal de quem não tem muito o que fazer. Classificou a data do anúncio como um ‘marco lastimável’ e repudiou as medidas unilaterais com notas oficiais carregadas de adjetivos dramáticos, que na prática têm o peso de uma folha de papel ao vento.
O Palácio do Planalto esbravejou que as acusações contra o Pix são descabidas e que o tema do desmatamento é um absurdo retórico. Pode até ser verdade, mas na geopolítica da força, quem tem o maior mercado consumidor dita as regras e ignora os gritos de indignação da periferia do capitalismo.
Como troco, o Brasil promete acionar a Lei de Reciprocidade e arrastar os Estados Unidos para a Organização Mundial do Comércio. Uma ameaça quase nostálgica, considerando que a própria OMC está paralisada há anos justamente porque os americanos se recusam a nomear juízes para o seu tribunal de apelações.
Resta ao Brasil o eterno plano B de procurar ‘novos parceiros’ e diversificar mercados, enquanto tenta apagar o incêndio dos setores nacionais afetados. Mais uma vez, o país descobre da pior maneira que, na mesa de negociações global, ou você está sentado comendo, ou você é o prato principal.