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O clube dos ternos: como os planos de governo reduzem mulheres a estatísticas e promessas vazias

É tempo de eleição e, como de praxe, os marqueteiros correm para espanar a poeira das “pautas femininas” e enfiá-las em algum anexo esquecido dos planos de governo. O diagnóstico do Instituto Update sobre as 12 candidaturas à Presidência apenas confirma o óbvio: para a nossa elite política, a mulher é um excelente cabo eleitoral e uma estatística comovente, mas nunca um sujeito político capaz de decidir os rumos do país.

A pesquisa revela que os programas de governo adoram tratar as cidadãs brasileiras como um bloco homogêneo de vítimas indefesas que precisam de resgate. Os candidatos competem para ver quem promete mais delegacias especializadas ou penas mais duras, mas travam na hora de desenhar como essas mulheres vão transitar pelas ruas sem pânico ou ocupar espaços reais de poder.

O cinismo atinge seu ápice na hora de discutir a participação política. Enquanto as pesquisas apontam que a esmagadora maioria quer mais mulheres no comando, apenas um candidato teve o trabalho de propor regras contra a violência política de gênero e financiamento real para candidaturas femininas. Querem o voto delas, mas Deus nos livre de dividir a cadeira do poder.

O que impera nos PDFs oficiais é a velha tática do “copia e cola” de boas intenções desprovidas de qualquer viabilidade técnica. Há menções bonitas sobre dignidade e proteção, mas o detalhamento sobre metas, orçamentos, prazos de implementação ou articulação com o mundo real é rigorosamente zero. É a política pública de ficção científica.

Falar de violência doméstica é fácil e não queima o filme de ninguém; afinal, até o candidato mais reacionário sabe que defender agressor de mulher pega mal nas redes sociais. No entanto, o debate é convenientemente reduzido ao ambiente doméstico, ignorando de forma soberba que a violência de gênero começa na calçada escura e no ponto de ônibus deserto.

Os números são brutais: quase 80% das mulheres sentem medo ao sair à noite e mudam suas rotas diárias por pura insegurança. Mesmo assim, apenas um concorrente ao Planalto conseguiu ligar os pontos e associar a segurança feminina à mobilidade urbana e ao transporte público. Para o resto, a solução de segurança pública continua sendo a mesma obsessão com o policiamento ostensivo e o encarceramento em massa.

A tal “autonomia econômica” também virou chiclete retórico nos debates. Mais da metade dos planos cita o termo, mas a definição varia conforme o freguês: enquanto uns defendem tímidas garantias trabalhistas, outros empurram o “empreendedorismo de sobrevivência”, como se o livre mercado e um punhado de microcrédito fossem resolver a desigualdade salarial histórica de 94%.

A palhaçada ideológica fica ainda mais clara quando o assunto é a política de cuidados. As creches e o suporte familiar deixam de ser encarados como infraestrutura pública básica para liberar a força de trabalho feminina e passam a ser tratados, por parte considerável dos candidatos, como um mero reforço da “sagrada maternidade”. É o Estado lavando as mãos e terceirizando o trabalho de cuidado não pago para as costas das mães e avós.

O abismo entre o que as mulheres demandam e o que os marqueteiros oferecem é colossal. Elas sabem que têm as melhores propostas para a segurança e para a gestão pública, mas continuam sendo tratadas apenas como o público-alvo passivo de programas desenhados por homens de terno em salas com ar-condicionado.

No fim das contas, as propostas de governo dirigidas às mulheres não passam de um adereço cenográfico de campanha. Servem para ilustrar inserções de TV e aplacar críticas imediatas, mas revelam que, nos bastidores do poder, o topo da pirâmide decisória continua sendo um clube estritamente masculino que se recusa a entregar as chaves.

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