Existem segredos que guardamos para proteger quem amamos e segredos que guardamos porque, uma vez revelados, eles alteram a própria estrutura da nossa identidade, em “O Drama” (The Drama), o diretor norueguês Kristoffer Borgli que já havia provocado o público com o surrealismo de O Homem dos Sonhos (2023) retorna para dissecar a anatomia de um relacionamento moderno sob a ótica do desconforto e da paranoia social.
O filme nos apresenta a Emma (Zendaya) e Charlie (Robert Pattinson), um casal que exala a sofisticação intelectual de Boston, ele, um curador de museu sensível; ela, uma mulher magnética e pragmática, estão a uma semana do casamento perfeito até que, em uma noite regada a álcool com amigos, Emma faz uma confissão chocante sobre sua adolescência.
A revelação que envolve um plano sombrio e não concretizado de violência escolar funciona como uma granada lançada no centro da sala, a partir daí, o que era uma comédia romântica solar transmuta-se em um suspense psicológico asfixiante, Charlie não consegue mais enxergar a noiva, mas sim o monstro que ela poderia ter sido.

A força motriz do longa reside na paixão e na posterior erosão dela entre seus protagonistas, Zendaya entrega talvez sua performance mais profissional, dito isso desse crítico que tem verdadeira antipatia pela jovem, há um take rápido de um compilado de cenas de sexo dela que jamais acharia que ela teria cacife pra tanto,ela transita entre a vulnerabilidade de quem busca redenção e uma frieza calculista que deixa o espectador em dúvida: estamos diante de uma vítima do passado ou de uma sociopata latente?

Robert Pattinson, mestre em interpretar homens à beira do colapso nervoso, brilha ao personificar a “hipocrisia social”, seu personagem, Charlie, tenta racionalizar o segredo de Emma, mas acaba caindo em um ciclo de obsessão que expõe suas próprias inseguranças e sede de controle.
Borgli utiliza uma linguagem visual que flerta com o suspense psicológico, transforma os ambientes luxuosos e limpos do casal em espaços claustrofóbicos, uso de sons e cortes rápidos durante os diálogos mais tensos eleva o batimento cardíaco do público, transformando uma simples “DR” (discussão de relação) em um campo de batalha.

O roteiro, também assinado por Borgli e produzido por Ari Aster (Hereditário), não oferece saídas fáceis, o filme questiona: até que ponto conhecemos realmente a pessoa com quem dividimos a cama? E, mais importante: podemos condenar alguém por algo que ela pensou em fazer, mas não fez?
“O Drama” não é um filme para quem busca conforto ou finais redondos. É uma sátira ácida sobre a elite intelectual e um estudo perturbador sobre o perdão e o estigma, embora o terceiro ato flerte com o absurdo e possa dividir opiniões pelo tom quase pastelão , a obra se consolida como um dos títulos mais provocativos de 2026.
Prepare-se para sair do cinema não com respostas, mas com uma longa lista de perguntas para discutir no jantar se você ainda tiver estômago para isso.
Nota 4/5