Neste início de 2026, os Estados Unidos assumiram a presidência rotativa do G20 com uma reforma drástica que altera o DNA do fórum. Sob o comando de Donald Trump, a Casa Branca decidiu reduzir o número de grupos de trabalho de 15 para apenas três, focando exclusivamente no que define como a “missão central” do grupo: o fortalecimento econômico. A nova agenda substitui as diretrizes de desenvolvimento social e preservação ambiental por pilares voltados à desregulamentação financeira e à expansão da infraestrutura industrial, sinalizando uma ruptura com o modelo de governança global defendido nos últimos anos.

A mudança desmonta diretamente as prioridades estabelecidas pelo governo brasileiro durante sua gestão no bloco. Temas emblemáticos como a Aliança Global contra a Fome e a Pobreza, a taxação de super-ricos e a regulação internacional de plataformas digitais foram retirados da mesa de negociações. Em contrapartida, os EUA introduziram o conceito de “Energia Abundante”, que prioriza o desbloqueio de cadeias de suprimento de combustíveis fósseis e o incentivo à energia nuclear, deixando de lado o foco em transição energética e metas climáticas rígidas.
No campo da tecnologia, a nova presidência substituiu as discussões sobre o impacto social das redes por um grupo dedicado ao “Pioneirismo em Inovação”. O objetivo é acelerar o desenvolvimento de inteligência artificial e semicondutores com o mínimo de interferência estatal, visando manter a hegemonia americana frente à concorrência asiática. Essa visão “back to basics” (de volta ao básico) é vista por analistas como uma tentativa de transformar o G20 em uma ferramenta de cooperação econômica pragmática, afastando o fórum de questões ideológicas ou humanitárias.
A diplomacia brasileira e outros países do Sul Global reagiram com cautela à nova estrutura, expressando receio de que o G20 perca sua relevância como instância de solução para crises globais coordenadas. Enquanto Brasília já projeta esforços para retomar sua agenda apenas em 2027, quando o Reino Unido assumirá o comando, o atual governo americano defende que a simplificação do grupo é necessária para evitar a “burocracia ineficiente” e focar em resultados que gerem prosperidade imediata para as maiores economias do planeta.
O ápice dessa nova fase ocorrerá na Cúpula de Líderes em dezembro de 2026, que será sediada em um resort em Miami, Flórida. Até lá, o cenário internacional deve enfrentar um período de transição onde a diplomacia tradicional será testada por um modelo mais transacional de relações exteriores. A exclusão de temas como a sustentabilidade e a desigualdade marca o fim de uma era de consenso multilateral e inicia um capítulo onde a segurança energética e a soberania econômica ditam o ritmo das potências globais.