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O teatro das blusinhas e o cinismo concentrado de Brasília

Brasília amanheceu com aquela pressa artificial que só o desespero eleitoral consegue produzir. A bola da vez no picadeiro do Congresso Nacional é a chamada “taxa das blusinhas”, uma medida provisória que tenta decidir se o cidadão comum tem ou não o direito de comprar bugigangas chinesas sem ser assaltado pelo leão do Fisco.

A MP 1.357 de 2026, que zera o imposto de importação de 20% para compras internacionais de até 50 dólares, é o tipo de osso que o governo joga para a plateia. Vender a ilusão de consumo fácil na internet virou a grande estratégia de marketing de uma gestão que precisa, a todo custo, parecer popular enquanto as contas públicas sangram.

Claro que nada em Brasília corre de graça. O presidente do Congresso, Davi Alcolumbre, segurou a comissão mista da MP até onde pôde, operando no clássico manual do ‘criar dificuldade para vender facilidade’. Bastou um cafezinho com o presidente Lula para que o senador, num passe de mágica, liberasse o andamento da carruagem antes que o texto caducasse em setembro.

De um lado da trincheira, a Confederação Nacional da Indústria chora as pitangas, alegando concorrência desleal da China e exigindo que o chicote tributário continue estalando nas costas do importador individual. Do outro, o governo jura de pés juntos que o imposto zero é pura bondade social, ignorando que a arrecadação federal é uma máquina de moer o bolso de quem consome.

A segunda-feira de ‘esforço concentrado’ promete ser um teste de resistência para o cinismo parlamentar. A comissão mista se reúne às pressas às 16h para carimbar o relatório favorável da senadora Leila Barros, enviando o texto ao plenário da Câmara duas horas depois, num ritmo de vapt-vupt que os deputados raramente aplicam para temas realmente complexos.

Para disfarçar o cheiro de lobby que exala da discussão sobre as blusinhas, o Congresso resolveu rechear a semana com pautas de apelo social irresistível. O fim da escala de trabalho 6×1 foi estrategicamente jogado no meio do turbilhão, servindo como a cortina de fumaça perfeita para desviar a atenção do varejo tributário.

Na CCJ do Senado, Omar Aziz já preparou o terreno para blindar o texto da escala 6×1, rejeitando todas as emendas para evitar que a proposta faça o caminho de volta à Câmara. É a eficiência legislativa usada não para debater, mas para acelerar o processo antes que alguém resolva ler as letras miúdas do impacto econômico.

Para o exército de informais que sustenta a economia do país nas costas, o cardápio da semana oferece duas MPs voltadas para mototaxistas e entregadores de aplicativo. Em vez de direitos sólidos ou desoneração real, o Estado oferece linhas de crédito para que o trabalhador se endivide comprando motos e bicicletas elétricas para continuar trabalhando de sol a sol.

Ainda há espaço no saldão de votações para a saúde oncológica, agroecologia e o Plano Nacional de Cultura. Tudo empacotado e vendido como prioridade absoluta em um rolo compressor legislativo que visa apenas limpar a pauta e garantir que os parlamentares possam voltar para suas bases eleitorais de mãos cheias.

No fim do dia, o espetáculo do Congresso Nacional entrega exatamente o que se espera dele: muita fumaça, discursos inflamados sobre o ‘bem do povo’ e um acordo de bastidores que acomoda os interesses de quem realmente manda. O contribuinte, enquanto isso, assiste ao show esperando para ver se sua próxima encomenda internacional vai custar o dobro do preço ou não.

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