Mais um fim de semana de campanha eleitoral e o circo democrático segue seu script rigorosamente ensaiado. Enquanto o cidadão comum tenta apenas sobreviver à inflação e pagar as contas, a horda de candidatos à Presidência se desdobrou em caminhadas, carreatas e discursos genéricos, tudo para convencer o eleitor de que eles possuem as fórmulas mágicas para consertar o Brasil de um dia para o outro.
Na ala dos que buscam a bênção do PIB do campo, Romeu Zema e Ronaldo Caiado vestiram seus melhores figurinos rurais. Zema correu para a Expointer defender o seguro agrícola, enquanto Caiado bateu ponto na Festa do Peão de Barretos antes de gastar a sola do sapato na Avenida Paulista, provando que o caminho mais curto para o coração do agronegócio nacional passa por um rodeio sertanejo e muita promessa de subsídio estatal.
Enquanto isso, a esquerda mais ideológica preferiu o conforto das bolhas sindicais e o ativismo de sofá. Rui Costa Pimenta defendeu o fim da classificação de crimes hediondos em um sindicato de metalúrgicos, enquanto Edmilson Costa, que sequer se deu ao trabalho de ir às ruas, limitou-se a postar um vídeo contra a escala 6×1, provando que a revolução proletária de fim de semana agora é feita diretamente por home office.
Na categoria de terapia eleitoral gratuita, o candidato Wilson Grassi resolveu simplesmente ignorar a agenda de sábado para correr na Ponte Estaiada no domingo. Aproveitou a endorfina pós-exercício para gravar vídeos sobre autoestima e saúde emocional nas redes sociais, transformando uma postulação presidencial em um retiro de bem-estar pessoal altamente público.
Flávio Bolsonaro adotou o clássico figurino de xerife populista. Após passear de moto e barco em Angra dos Reis, reuniu-se com o ministro da Segurança de El Salvador para bajular o modelo repressivo de Bukele, reclamando que tem pouco preso no Brasil e prometendo criar meio milhão de vagas em presídios, como se segurança pública fosse resolvida apenas com concreto e tranca.
Do outro lado da polarização, Luiz Inácio Lula da Silva foi a Belo Horizonte discursar para mulheres sobre o trabalho doméstico não remunerado, sugerindo que o Estado deveria pagar por esses afazeres para inflar o PIB em 13%. Resolvida a economia nacional no gogó, o petista correu de volta a Brasília para a verdadeira prioridade do seu domingo: gravar programas de propaganda eleitoral sob o ar-condicionado de um estúdio.
Já o candidato Augusto Cury tentou equilibrar psicanálise e agronegócio de forma frenética. Lançou seu jingle, passou por sabatina de TV, visitou um congresso sobre autismo e terminou o domingo em uma feira agropecuária em Uberlândia, operando em um nível de onipresença que certamente exige muito controle de ansiedade de sua própria autoria.
A militância raiz de baixo orçamento ficou por conta de Samara Martins e Hertz Dias. Samara caminhou por Mauá e voou para uma carreata na Paraíba, enquanto Hertz debateu machismo em Natal antes de se trancar em uma live para lançar candidaturas virtuais, evidenciando o abismo de estrutura que separa os partidos nanicos dos tubarões do fundo eleitoral.
Pelo partido Missão, Renan Santos desfilou em São Paulo e prometeu a maior proeza tecnológica da história recente: zerar a fila do SUS em três anos usando apenas um prontuário eletrônico unificado. Uma audácia administrativa que ignora solenemente a falta crônica de médicos, hospitais e verba nas periferias, apostando que um arquivo em PDF opera milagres.
Por fim, Clariana Barão atingiu o ápice da sinceridade política ao simplesmente não apresentar agenda pública alguma. No final das contas, entre os que prometem o impossível, os que correm na ponte e os que fingem que trabalham, a candidata que resolveu descansar no sofá talvez tenha sido a única a não subestimar a inteligência do eleitor neste fim de semana.