É época de eleição e a hipocrisia política ganha o tradicional banho de loja. Para os doze candidatos à Presidência da República, as mulheres são o alvo perfeito de promessas genéricas, tratadas não como cidadãs ativas, mas como um bloco monolítico de vítimas indefesas que precisam de salvação estatal.
O levantamento do Instituto Update escancara esse verniz de boas intenções ao analisar os planos de governo. O diagnóstico é constrangedor: os programas reconhecem os problemas que sufocam o cotidiano feminino, mas falham miseravelmente na hora de propor soluções concretas, apresentando ideias sem metas, sem orçamento e sem qualquer plano de execução.
A lógica do poder é clara: mulher serve para votar, não para governar. Embora 72% das brasileiras exijam maior representação política, apenas um mísero candidato entre doze apresentou uma proposta estruturada para garantir a participação feminina nos espaços de decisão e combater a violência política de gênero.
Para o restante dos postulantes ao Planalto, a ideia de dividir o bolo do fundo partidário ou ceder cadeiras de destaque na Esplanada parece um pesadelo intolerável. Preferem manter as mulheres na confortável posição de destinatárias passivas de caridade institucional.
No quesito segurança pública, o descolamento da realidade beira o cinismo. Enquanto 79% das mulheres relatam pânico ao caminhar à noite pelas ruas do país, apenas um candidato teve a capacidade cognitiva de associar a integridade física feminina à mobilidade urbana e ao transporte público.
Para a imensa maioria dos planos de governo, segurança se resume ao velho fetiche do policiamento ostensivo e do encarceramento. Ignora-se, deliberadamente, que a falta de iluminação pública e pontos de ônibus desertos são cúmplices diários da violência de gênero nas periferias.
Quando o assunto é autonomia econômica, a disputa ideológica vira piada. De um lado, programas propõem creches e igualdade salarial; do outro, o fardo é jogado de volta no colo da mulher através do mantra do “empreendedorismo” — um eufemismo gourmet para dizer “vire-se sozinha, mas agora com um CNPJ”.
A equiparação salarial, defendida por 94% das trabalhadoras, é tratada como mera sugestão opcional nos programas. É muito fácil assinar manifestos de igualdade em período de campanha, mas extremamente inconveniente fiscalizar as empresas que financiam essas mesmas estruturas partidárias.
O debate sobre as políticas de cuidado expõe a última camada desse reacionarismo velado. Enquanto alguns planos enxergam as creches como infraestrutura para a emancipação produtiva da mulher, outros tratam o tema como um mero puxadinho para preservar a estrutura familiar tradicional, onde o trabalho invisível e não remunerado segue sendo obrigação feminina.
O raio-x do Instituto Update mostra que, para a elite política nacional, a mulher ainda é vista sob a ótica do cabresto assistencialista. São aceitas como vítimas para ilustrar discursos inflamados ou como mães para estampar santinhos de campanha, mas jamais como sujeitos capazes de ditar os rumos do país.