A concessão de aposentadoria a um coronel da reserva, mesmo após sua condenação e prisão pelo assassinato da esposa, gerou uma forte onda de indignação e debates jurídicos nesta quinta-feira (02/04/2026). O caso levanta questionamentos sobre as “brechas” na legislação militar e a distinção entre a conduta criminal do indivíduo e seus direitos previdenciários adquiridos ao longo da carreira.
Embora o oficial tenha sido expulso da corporação e condenado a uma pena de reclusão em regime fechado, o pagamento de seus proventos não foi interrompido. Juridicamente, o Estado fundamenta o pagamento na premissa de que a aposentadoria é um direito de natureza alimentar e contributiva, acumulado antes da prática do crime, e que a suspensão total deixaria seus dependentes e o próprio condenado sem meios de subsistência.
Por que ele continua recebendo?
A manutenção do salário de militares condenados baseia-se em interpretações específicas do Estatuto dos Militares e da Constituição Federal:
• Direito Adquirido: A defesa alega que o coronel contribuiu para a previdência militar durante décadas, e que o benefício é um patrimônio jurídico que não pode ser confiscado como punição adicional ao crime.
• “Morte Ficta”: Em alguns estados, existe a figura jurídica da “morte ficta”. Quando um militar é expulso, ele é considerado “morto” para a corporação, e o salário é transferido para seus herdeiros (como se fosse uma pensão por morte), visando não desamparar a família.
• Decisão Judicial: Muitas vezes, a cassação da aposentadoria só ocorre se houver uma determinação expressa do juiz na sentença condenatória, fundamentada em crimes contra a administração pública (como corrupção), e não necessariamente em crimes comuns, como o feminicídio.

Movimentos por Mudança na Lei
A situação provocou reações imediatas em assembleias legislativas e no Congresso Nacional. Grupos de defesa dos direitos das mulheres e associações de juristas argumentam que o pagamento de altos salários a assassinos confessos é um “tapa na face” da sociedade e das famílias das vítimas.
• Projetos de Lei: Estão em tramitação propostas que visam a cassação automática de aposentadorias e pensões de agentes públicos condenados por crimes hediondos ou feminicídio.
• Pressão Popular: Nas redes sociais, campanhas pedem que o valor da aposentadoria seja revertido para indenizar a família da vítima ou para fundos de combate à violência contra a mulher.
O Conflito de Princípios Jurídicos
O caso expõe o choque entre dois princípios do Direito:
1. Dignidade da Pessoa Humana: Ninguém pode ser privado de recursos mínimos para sobrevivência.
2. Moralidade Administrativa: O Estado não deve premiar com recursos públicos quem rompeu o pacto social de forma tão violenta.
Enquanto a legislação não é alterada, o coronel continuará constando na folha de pagamento do Estado, mesmo cumprindo pena atrás das grades. Especialistas acreditam que o caso chegará ao Supremo Tribunal Federal (STF) para definir se a expulsão de um oficial por crime infamante deve ou não acarretar a perda total dos proventos de inatividade.