A segunda-feira começa com aquele tradicional teatro que a política brasileira chama de “agenda de campanha”. É o dia em que homens e mulheres de terno fingem ter soluções mágicas para o país enquanto correm atrás de microfones, empresários e, se sobrar tempo, de algum eleitor real perdido pelo caminho.
Ronaldo Caiado resolveu gastar a sola do sapato nos carpetes luxuosos de São Paulo. Entre uma entrevista matinal e reuniões com barões da Anfavea e do SindusCon-SP, o candidato deixa claro seu foco: se a economia vai mal, o lobby com as montadoras e a construção civil precisa ir muito bem, de preferência a portas fechadas.
Já Wilson Grassi, do Democrata, optou pelo esforço mínimo de sobrevivência política. Sua agenda resume-se a olhar para o próprio umbigo em reuniões internas e gravar vídeos com a área de marketing, provando que a realidade do candidato hoje é puramente digital e controlada por assessores.
Enquanto isso, Augusto Cury, o candidato do Avante conhecido por vender fórmulas de controle emocional e resiliência, parece não ter lidado bem com as forças da natureza. Sua ida a Florianópolis foi prontamente cancelada devido ao “mau tempo”, mostrando que até a inteligência multifocal sucumbe diante de uma garoa persistente.
Clariana Barão adotou uma estratégia quase secreta de campanha para esta segunda-feira. Com apenas um compromisso agendado para as nove da noite na Rádio Pinel, no Rio Grande do Sul, a candidata parece apostar no público notívago e na ironia fina de discursar em uma rádio cujo nome remete, no imaginário popular, à perda da sanidade.
Na extrema-esquerda, Hertz Dias, do PSTU, resolveu fazer o oposto e bater o recorde de hiperatividade do dia. O candidato agendou panfletagens nos Correios, caminhadas no centro, visitas à universidade, reuniões com sindicatos e até aparição em porta de hospital em Porto Alegre, num esforço hercúleo para convencer meia dúzia de convertidos.
Renan Santos, o rosto do partido Missão, passou o dia em um safári midiático pelas redações paulistas. De sabatina em sabatina Estadão, Gazeta do Povo e Veja, o candidato demonstra que sua prioridade não é o corpo a corpo na rua, mas sim garantir que seu corte de vídeo para as redes sociais saia com uma boa iluminação.
Romeu Zema, o representante do Novo, viajou até Curitiba para falar sobre corrupção com os moradores do bairro Santa Cândida. Uma escolha segura, higienizada e confortável, bem ao estilo da legenda, perfeita para quem prefere debater ética pública longe da poeira e do calor das periferias reais.
Do outro lado do espectro, os pesos-pesados e os radicais de sempre Lula, Flávio Bolsonaro, Rui Costa Pimenta, Samara Martins e Edmilson Costa simplesmente ignoraram a obrigação de dar satisfações. Sem agenda divulgada, mostram que o topo do poder ou o isolamento ideológico dispensam qualquer esforço de transparência com o eleitorado.
Assim se desenha mais uma segunda-feira de campanha no Brasil: entre o cancelamento por chuva, a maratona panfletária inútil e o silêncio confortável dos favoritos, o eleitor comum segue sendo apenas o espectador de um circo que cobra extremamente caro pelo ingresso.