Levar um dos maiores fenômenos editoriais da última década para o cinema é, por si só, uma faca de dois gumes, se por um lado a base de fãs leais garante salas cheias e apelo comercial logo no primeiro final de semana, por outro, a responsabilidade de traduzir a atmosfera opressiva e perturbadora das páginas para a linguagem audiovisual exige um rigor narrativo que a adaptação cinematográfica de Verity falha miseravelmente em entregar, o resultado final é um longa-metragem engessado e involuntariamente cômico nos momentos em que deveria provocar fobia genuína.
A premissa, amplamente conhecida pelos leitores do best-seller de Colleen Hoover, acompanha Lowen Ashleigh, uma escritora à beira da falência financeira e emocional, sua sorte parece mudar quando ela é contratada por Jeremy Crawford para finalizar os últimos volumes de uma série de sucesso criada por sua esposa, Verity Crawford, uma autora aclamada que ficou gravemente incapacitada após um misterioso e trágico acidente de carro, para mergulhar no processo criativo, Lowen aceita se hospedar na isolada e sombria mansão da família para organizar o caótico escritório de Verity.
É durante a busca por notas e esboços que Lowen encontra uma autobiografia não publicada de Verity, o manuscrito, recheado de confissões estarrecedoras, revela uma mente sádica, maternidade rejeitada e relatos macabros envolvendo a morte da filha do casal, conforme a leitura avança, o limite entre a ficção, a realidade e a sanidade dos personagens começa a se esfacelar no ambiente claustrofóbico da casa.

No entanto, o que na literatura funcionava como um thriller de paranoia psicológica e constante dúvida moral, na tela se transforma em uma sucessão preguiçosa de clichês do cinema B.

(Nota Pessoal – Para a confecção dessa matéria, me municiei de todas as informações possíveis sobre a obra literária, uma vez que não tive acesso ao livro)
A direção peca brutalmente na condução do ritmo: o filme se arrasta em sequências repetitivas de caminhadas silenciosas por corredores escuros, apostando em jump scares barulhentos para criar um susto artificial que dura apenas alguns segundos, a direção de fotografia opta por uma iluminação excessivamente sombria e dessaturada, um recurso batido que tenta, sem sucesso, fabricar um clima gótico que o próprio roteiro desprovido de tensão não consegue sustentar.

O elenco, claramente prejudicado pela fragilidade do texto e por diálogos expositivos, entrega atuações desconectadas e sem nuances, a dinâmica entre Lowen e Jeremy, que deveria sustentar o triângulo amoroso e a tensão erótica/psicológica central da narrativa, carece de qualquer química crível.
A dor do luto do marido e o isolamento da jovem autora soam caricatos, fazendo com que conflitos centrais pareçam melodramáticos e artificiais, sequências que deveriam causar repulsa ou dilema moral no espectador acabam provocando risos involuntários na platéia, cortesia de uma montagem picotada e de uma trilha sonora que insiste em ditar, com notas pesadas, exatamente o que o público deve sentir a cada cena.

O golpe de misericórdia ocorre no terceiro ato, grande reviravolta final o famoso debate sobre o manuscrito versus a carta de defesa, que dividiu leitores ao redor do mundo é entregue de forma apressada, confusa e desprovida de qualquer peso dramático, e por que não dizer tendenciosa, levando um público que já estava a uma hora e quarenta minutos sendo guiado pelo manuscrito.
O filme falha em construir a paranoia progressiva e a ambiguidade moral de Lowen ao longo dos dois primeiros atos, o desfecho surge como uma solução conveniente e artificial do roteiro, perdendo todo o impacto do “soco no estômago”.

Verity tropeça na própria ambição de tentar agradar a todos sem se comprometer com nada, incapaz de construir um mistério sólido e envolvente para os espectadores leigos, superficial demais para satisfazer os fãs mais fervorosos do livro, a produção se consolida como mais uma adaptação caça-níqueis de Hollywood.
Nota 1.5/5
Um exercício genérico de suspense que desperdiça seu material de origem em prol de uma fórmula esquecível e desprovida de alma.