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A Doce Ilusão do Quase: O Brasil e sua Coleção de Pratas no Mundial de Canoagem

O esporte brasileiro tem uma obsessão quase patológica pela prata, esse quase-ouro que nos permite celebrar a derrota com sabor de vitória. No Mundial de Canoagem na Polônia, Jacky Godmann e Gabriel Nascimento garantiram seu pedaço de metal cinza no C2 500m. Ficaram atrás de Zakhar Petrov e Ivan Shtyl, competidores sob a conveniente etiqueta de “atletas independentes” — o eufemismo diplomático favorito do esporte moderno.

A diferença na linha de chegada foi de meros 58 centésimos de segundo. Tempo suficiente para gerar aquele conhecido discurso de consolação sobre como “foi por pouco”. No Brasil, o “quase” é quase uma instituição financeira; rende dividendos de simpatia e alimenta narrativas de superação que mascaram a falta de estrutura real.

A grande novidade celebrada pelos burocratas de plantão foi o fato de esta ser a primeira medalha mundial sênior da dupla e, vejam só, o primeiro pódio brasileiro sem a assinatura de Isaquias Queiroz. Uma façanha que revela mais a nossa assustadora dependência de um único homem do que a renovação real de uma modalidade.

Isaquias, claro, fez o que dele se espera para justificar os salários da confederação: levou o ouro no C1 500m no dia anterior. Ele continua sendo o herói solitário, o sujeito que carrega o piano, a canoa e o marketing esportivo nacional nas costas enquanto os outros tentam descobrir como se rema sem afundar.

No balanço geral das águas, o Brasil terminou na sétima colocação. Uma contabilidade modesta de uma medalha de ouro, cinco de prata e duas de bronze. Uma coleção de vice-campeonatos perfeita para quem adora aplaudir o segundo lugar como se fosse resultado de um planejamento estratégico brilhante.

O verdadeiro milagre, contudo, acontece na Paracanoagem. Foram seis medalhas ao todo. Mas, como dita a tradição do mercado de atenção esportivo, esses atletas carregarão o prestígio da delegação nas costas recebendo apenas uma fração do espaço nos telejornais de domingo.

Fernando Rufino, o Cowboy, perdeu o ouro por absurdos três centésimos de segundo para o australiano Curtis McGrath. Três centésimos é o tempo que você leva para piscar, mas no esporte de alto rendimento é a distância abissal entre o topo do pódio e o papel de coadjuvante de luxo.

Logo depois, no KL3M200m, assistimos a uma dobradinha com Gabriel Porto faturando a prata e Miqueias Rodrigues com o bronze. O ouro? Ficou com o georgiano Serhii Yemelianov. Mais uma vez, subimos em bando para os degraus mais baixos enquanto outros levavam o prêmio principal.

Essa profusão de pratas mascara a dura realidade de que a canoagem nacional ainda é um esporte de exceções, não de regras. Vivemos de talentos brutos e obstinados que superam a falta crônica de incentivo sistemático para depois servirem de moldura em fotos oficiais de políticos em anos eleitorais.

Voltamos da Polônia com as malas pesadas de prata. É um metal bonito, não há como negar, mas que oxida rápido sob a luz da realidade. Resta saber até quando continuaremos celebrando o quase-topo enquanto os outros países continuam remando para vencer de verdade.

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