Existe um limite entre o body horror que perturba e o que simplesmente cansa, Insaciável (título original Saccharine), de Natalie Erika James, ultrapassa esse limite com uma teimosia quase ofensiva, o filme chega aos cinemas brasileiros com a pretensão de ser o herdeiro legítimo de A Substância, mas entrega apenas uma versão diluída, previsível e excessivamente longa de um conceito que já nasceu esgotado.
A premissa é simples: no papel, potencialmente potente Hana (Midori Francis), estudante de medicina obcecada pelo próprio corpo, começa a tomar pílulas milagrosas feitas de cinzas humanas, o que se segue deveria ser um mergulho visceral no culto à magreza e na indústria que lucra com a insegurança, em vez disso, o roteiro se contenta em martelar a mesma ideia por quase duas horas, sem jamais encontrar uma forma cinematográfica interessante de desenvolvê-la.
O filme se apoia pesadamente em close-ups de mastigação, sons amplificados de comida e efeitos de transformação corporal que pretendem ser chocantes, mas rapidamente se tornam repetitivos e, pior, tediosos, a câmera insiste em permanecer dentro da cabeça de Hana de forma tão didática que o espectador acaba se sentindo tratado como alguém incapaz de compreender uma metáfora sem que ela seja explicitada em cada plano.

O “horror” sobrenatural, o espírito da mulher cujas cinzas alimentam as pílulas funciona mais como muleta narrativa do que como elemento verdadeiramente aterrorizante, a personagem se esforça, mas é engolida por um filme unidimensional que oscila apenas entre a culpa e a compulsão, o restante do elenco (Danielle Macdonald e Madeleine Madden, principalmente) recebe tão pouco material que mal consegue existir além de funções de apoio.
A direção latina tentando demonstrar controle e atmosfera, mas parece apenas repetir fórmulas já vistas, sem a elegância nem a precisão que o gênero exige.

O resultado é um filme que se pretende denúncia social e acaba sendo apenas um exercício de mau gosto e pretensão, a crítica à pressão estética e aos distúrbios alimentares é tão óbvia e tão pouco elaborada que perde qualquer força, em vez de inquietar, Insaciável irrita, em vez de assombrar, entedia, em vez de deixar o espectador refletindo sobre o próprio corpo, deixa apenas a vontade de que a sessão tivesse acabado quarenta minutos antes.
Nota 0/5
Não por falta de ambição, mas por excesso de previsibilidade, de didatismo e de autoindulgência, um desperdício de tempo e de potencial.

Ao final da sessão, a única coisa insaciável é a sensação de tempo perdido, sem substância (com o perdão do trocadilho), sem identidade e desprovido de qualquer virtude artística ou de entretenimento, o longa não deixa margem para salvação.