Não precisamos ir até a Europa para enxergar o abismo. Olhemos para os nossos vizinhos. Na Argentina, o River Plate não parou na reforma que fez do Monumental de Núñez o maior estádio da América do Sul; o clube já colocou em marcha uma nova expansão para abrigar 101 mil torcedores sob uma cobertura integral voltada ao conforto. Logo ali ao lado, o Boca Juniors iniciou a modernização e ampliação da mística La Bombonera para 80 mil espectadores, aproximando ainda mais o campo da arquibancada sem destruir sua identidade histórica. Se cruzarmos o oceano em direção à Copa do Mundo de 2030, encontramos o Marrocos erguendo do zero o monumental Estádio Hassan II, uma joia arquitetônica para 115 mil pessoas projetada com a ambição legítima de sediar a final do planeta. Todos eles entenderam que o palco do espetáculo é sagrado.
E o que nós fazemos por aqui? O oposto. No Brasil, o futebol respira por aparelhos justamente porque tratamos nossos tempos sagrados como reles salões de festa de aluguel. Nossos gramados são sacrificados sem o menor pudor em nome do lucro imediato de produtoras de eventos. O preço dessa modernidade artificial salta aos olhos na rodada seguinte: campos completamente destruídos, esburacados, transformados em pastos onde a bola teima em quicar direito. Como exigir um passe refinado, uma triangulação rápida ou um drible curto do nosso jogador se o palco principal do espetáculo é transformado em um picadeiro de lama?
A farsa do plástico e a conveniência do hino
Como não temos a competência de investir na engenharia do subsolo ou em ampliações sérias, nossa resposta à destruição dos palcos foi a proliferação dos gramados de plástico. O tapete sintético virou a norma cômoda porque os dirigentes preferem priorizar o dinheiro dos shows de meio de semana em detrimento da saúde dos atletas e da dinâmica natural do esporte. É o império do plástico substituindo a poesia e o amortecimento da grama natural.
Essa falta de cuidado com a nossa própria liturgia ficou escancarada recentemente na passagem da NFL pelo Maracanã. Houve uma comoção generalizada em torno do Hino Nacional Brasileiro, cantado por Péricles e aplaudido pelos astros americanos como uma “loucura emocionante”. Mas quem frequenta o futebol de verdade de toda semana sabe da profunda hipocrisia desse momento. No Brasileirão, o hino virou um estorvo protocolar solenemente ignorado. Mal começa a tocar a introdução, os batuques das organizadas sobem o tom, os fogos estouram e a torcida continua berrando hinos de amor ao clube, atropelando a letra da pátria sem o menor pudor. Na NFL, aquela plateia gourmetizada cantou bonito porque o hino ali virou fetiche de gringo ver, abertura de show pop para gerar engajamento em tela de celular.
A ladeira abaixo após o Penta e o oportunismo da canetada
O reflexo desse abandono técnico está nos resultados da nossa Seleção, que só faz cair de produção desde a conquista do Pentacampeonato em 2002. Virou rotina passar vergonha. Recentemente, amargamos um empate melancólico contra a Austrália em amistoso. Em Copas do Mundo, o outrora bicho-papão do futebol virou freguês de seleções da segunda prateleira europeia: caímos para a Bélgica, fomos eliminados pela Croácia e fomos despachados precocemente pela Noruega. O sumiço dos nossos craques de outrora não é culpa única e exclusiva de falhas no trabalho de base das categorias de clubes. Nós estamos destruindo o ecossistema que formava o jogador brasileiro de alma leve e drible fácil.
Muitos dos nossos clubes tradicionais, afundados em dívidas e semi-falidos por gestões criminosas, buscam a salvação no modelo imediatista das SAFs, que muitas vezes esquecem o planejamento de longo prazo e investem apenas para tentar ser campeões em um único ano — para, no ano seguinte, deixar o elenco desmoronar e voltar a brigar para não cair. Salvam-se dois ou três times que hoje mandam na América do Sul, mas que, ironicamente, são amplamente criticados pelo resto do país simplesmente porque resolveram se organizar administrativamente. Para piorar, o futebol ainda vira refém do populismo político. Governantes focados em reeleição destroem planejamentos inteiros das agremiações com uma única canetada eleitoreira de bastidor, visando unicamente conquistar votos de ocasião.
O verdadeiro show da bola na rede
Precisamos, urgentemente, fazer um exercício de retorno ao passado. Olhar para trás e lembrar de uma época não tão distante em que o Brasil revelava gênios em profusão. Naquele tempo, nossos estádios eram reservados para um único e exclusivo espetáculo: o espetáculo da bola nos pés.
O público ia ao campo para ver a ginga que o mundo inteiro tentava copiar e não conseguia. Ia para aplaudir o drible desconcertante, a criatividade do improviso, a genialidade que nascia da pura intuição do atleta brasileiro. O show não vinha do show do intervalo ou de pirotecnia de LED. O verdadeiro show era a bola estufando a rede.
Enquanto a Europa cava o subsolo e vizinhos como a Argentina ampliam seus monumentos para honrar o futebol, nós cobrimos nossos palcos com plástico ou os entregamos à lama dos eventos e à conveniência dos políticos. Se não protegermos a nossa identidade, nossa bola, aquela que nos deu essa história no peito, continuará morrendo de fome por falta de carinho.