O peso do trauma racial na subjetividade negra
O racismo estrutural impõe às pessoas negras uma carga de estresse crônico comparável aos danos psicológicos de um acidente de carro. A tese é defendida pelo psicólogo e psicanalista Lucas Veiga em seu livro Clínica do impossível: como pessoas negras podem cuidar da saúde mental em um mundo racista, publicado pela editora Paidós em 2026.
Segundo o autor, a recorrência das violências impede a cicatrização emocional. Enquanto uma vítima de acidente pode ser tratada e retomar sua rotina, o indivíduo negro enfrenta microagressões e injúrias raciais de forma contínua, o que mantém o sistema nervoso em estado de alerta permanente e dificulta a superação do trauma.
A persistência da violência e seus efeitos sociais
O cotidiano de pessoas negras é marcado por episódios que vão desde o monitoramento por seguranças em estabelecimentos até o medo constante em espaços públicos. Essas experiências, somadas às barreiras econômicas e políticas, formam um cenário de opressão estrutural que impacta diretamente a saúde mental.
Dados do Datafolha de 2024 corroboram essa realidade, indicando que 56% dos brasileiros pretos declaram ter sofrido algum tipo de discriminação. Entre pardos, o índice é de 17%, enquanto entre brancos a taxa é de 7%, evidenciando a desproporção na vivência de hostilidades baseadas na cor da pele.
Caminhos para a reconstrução da identidade
Diante da impossibilidade de erradicar o racismo a curto prazo, Lucas Veiga propõe a chamada “clínica do impossível”. O conceito baseia-se no processo de “tornar-se negro”, termo cunhado pela psiquiatra Neusa Santos Souza na década de 1980, que envolve a tomada de consciência política e a reafirmação da autoimagem.
O autor utiliza referências de Frantz Fanon para explicar como o ódio racial é projetado sobre o corpo negro. Para o psicólogo, o cuidado passa por ressignificar o corpo, que é a primeira casa e o principal veículo da humanidade de cada indivíduo, protegendo-o da internalização da violência externa. Mais informações sobre a obra podem ser consultadas em Editora Paidós.