Augusto Nardes cita déficit bilionário na Previdência e gastos fora do orçamento. Dados oficiais mostram que o desequilíbrio previdenciário chegou a R$ 440,6 bilhões em 2025, considerando diferentes regimes.
O futuro das aposentadorias no Brasil voltou ao centro do debate sobre as contas públicas. O ministro do Tribunal de Contas da União (TCU) Augusto Nardes afirmou que o país poderá enfrentar dificuldades para manter o pagamento dos benefícios previdenciários se o atual cenário fiscal não mudar.
Em declaração publicada nas redes sociais na quarta-feira (21), Nardes apontou um déficit superior a R$ 404 bilhões na Previdência e afirmou que os gastos realizados fora do orçamento agravam a situação econômica. O ministro também mencionou R$ 326 bilhões em despesas que classificou como “desorçamentação”.
“Então, que você que vai um dia querer se aposentar pela Previdência ficar sabendo que, como está, não haverá aposentadoria porque não temos mais economia suficiente para pagar nem os aposentados hoje e quem dirá futuramente”, declarou.
A fala chama atenção para um problema concreto das contas públicas: a diferença entre a arrecadação previdenciária e o volume necessário para pagar benefícios. No entanto, a afirmação de que o Brasil ficará sem recursos para pagar aposentadorias é uma projeção feita pelo ministro, e não uma conclusão oficial de que os pagamentos deixarão de ocorrer.

Déficit da Previdência ultrapassa centenas de bilhões
Os números oficiais mostram a dimensão do desafio. Segundo informações do Tribunal de Contas da União sobre o exercício de 2025, o déficit previdenciário consolidado chegou a R$ 440,6 bilhões, considerando o Regime Geral de Previdência Social, os regimes próprios dos servidores públicos, a proteção social dos militares e o regime previdenciário do Distrito Federal.
No Regime Geral de Previdência Social (RGPS), que atende a maior parte dos trabalhadores da iniciativa privada, o resultado também foi deficitário. A arrecadação líquida ficou em aproximadamente R$ 709,7 bilhões em 2025, enquanto as despesas com benefícios, sentenças judiciais e compensações previdenciárias chegaram a cerca de R$ 1,027 trilhão. A necessidade de financiamento foi de aproximadamente R$ 317,2 bilhões.

Os valores não devem ser confundidos: o déficit consolidado reúne diferentes regimes, enquanto o resultado do RGPS corresponde a um segmento específico do sistema. A diferença de abrangência ajuda a explicar por que os números apresentados nas análises fiscais podem variar.
O déficit significa que as receitas previdenciárias consideradas nesses cálculos não são suficientes para cobrir todas as despesas do período. O financiamento dos benefícios envolve o conjunto das receitas da seguridade social e dos recursos públicos, conforme as regras aplicáveis.
Ministro critica gastos fora do orçamento
Além do desequilíbrio previdenciário, Augusto Nardes criticou o que chamou de “desorçamentação”, expressão usada para se referir a gastos que, segundo ele, ficam fora do orçamento público.
“A situação se torna cada vez mais grave porque foi feita uma desorçamentação. Ou seja, gastar por fora. Atualmente, já estamos em R$ 326 bilhões”, afirmou.
O ministro relacionou esse cenário à dificuldade de atrair investidores internacionais e fez um alerta sobre os efeitos que, em sua avaliação, o quadro pode provocar na economia brasileira.
O valor de R$ 326 bilhões foi citado por Nardes em sua declaração. Para avaliar o alcance desse número, é necessário identificar quais despesas estão incluídas no cálculo, o período considerado e a metodologia utilizada. Sem esse detalhamento, não é possível tratar o montante como uma medida única e definitiva de todos os gastos realizados fora do orçamento.
Augusto Nardes relembra as pedaladas fiscais de Dilma Rousseff
Durante a manifestação, Nardes comparou o cenário atual às chamadas pedaladas fiscais do governo da ex-presidente Dilma Rousseff.
Em 2015, o ministro foi relator, no TCU, do processo que examinou manobras contábeis relacionadas a atrasos nos repasses do governo federal a bancos públicos. O caso teve papel importante na crise política que culminou no impeachment de Dilma, em 2016.
“Tomei uma decisão muito importante em 2015, fui o relator das pedaladas fiscais, que foram recursos utilizados dos fundos de Previdência sem autorização do Congresso Nacional”, declarou.
Nardes afirmou que práticas semelhantes de manipulação das contas públicas estariam voltando a ocorrer. A comparação, porém, é uma avaliação do ministro. Para estabelecer equivalência entre os episódios, é necessário analisar os mecanismos contábeis, os atos administrativos e as conclusões dos órgãos de controle em cada caso.
O que o déficit significa para quem pretende se aposentar?
O desequilíbrio financeiro da Previdência representa um desafio para a sustentabilidade das contas públicas. Quando as despesas crescem mais do que as receitas, aumenta a necessidade de financiamento e a pressão sobre o orçamento.
Isso não significa, automaticamente, que os aposentados deixarão de receber seus benefícios. A declaração de Nardes é um alerta sobre riscos futuros, não um anúncio de interrupção dos pagamentos.
O debate envolve fatores como a evolução do número de beneficiários, a arrecadação das contribuições, o mercado de trabalho, as regras previdenciárias e a capacidade do governo de financiar as despesas ao longo dos anos.
Para quem ainda está na ativa, o tema tem impacto direto no planejamento financeiro e na discussão sobre as regras de aposentadoria. A questão central é como assegurar o pagamento dos benefícios atuais e futuros sem ampliar de forma insustentável a pressão sobre as contas públicas.
Ministro anuncia aposentadoria do TCU para o fim de 2026
Augusto Nardes também anunciou que pretende antecipar sua aposentadoria do Tribunal de Contas da União para o fim de 2026.
Em 2022, o ministro esteve no centro de uma controvérsia após o vazamento de um áudio no qual comentava articulações em setores das Forças Armadas depois da vitória de Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições presidenciais.
O novo alerta sobre a Previdência recoloca Nardes no debate público sobre a situação fiscal do país. Os números oficiais confirmam a existência de um déficit previdenciário expressivo, mas a previsão de que o Brasil ficará sem dinheiro para pagar aposentadorias deve ser entendida como a avaliação do ministro sobre os riscos do cenário atual, e não como uma certeza sobre o futuro do sistema.
Fonte: declarações de Augusto Nardes e dados oficiais do Tribunal de Contas da União e do Ministério da Previdência Social.
Confira o o vídeo: