Após grande expectativa, a Laika Studios traz às telonas O Bosque Selvagem (Wildwood), adaptação do romance de Colin Meloy comandada por Travis Knight (Kubo e as Cordas Mágicas), no aspecto estritamente visual e artesanal, o filme é um monumento do stop-motion, a textura dos cenários em escala miniaturizada, o rigor nas sequências de ação e o nível de detalhamento dos cenários fantásticos provam, mais uma vez, a maestria técnica da equipe.
A premissa acompanha a jovem Prue McKeel (com voz original de Peyton Elizabeth Lee e dublagem nacional de Giulia Benite) em uma perigosa incursão pela Floresta Impassável, uma floresta proibida e mágica, para resgatar seu irmão caçula raptado por uma revoada de corvos, ao lado do colega Curtis (Jacob Tremblay), a jornada os coloca no centro de conflitos entre animais falantes, rebeldes e figuras ambiciosas.
O grande entrave de O Bosque Selvagem não está na modelagem da argila ou na direção de arte, mas na incapacidade de confiar na própria inteligência de seu público infanto-juvenil, ao invés de construir uma parábola orgânica e atemporal como o próprio estúdio fez com brilhantismo em Coraline, o roteiro capitula de maneira ruidosa diante do descontrole woke ao tentar introduzir ideologias contemporâneas de forma totalmente forçada e artificial em uma trama direcionada para crianças.

Sub-enredos e diálogos parecem desenhados não para mover os sentimentos dos pequenos, mas para cumprir uma pauta de doutrinação social,panfletando conceitos morais adultos e lições morais impostas que soam pedantes e deslocadas do contexto do universo mágico, essa necessidade obsessiva do cinema atual em transformar fábulas infantis em palanques ideológicos mina a espontaneidade da projeção, interrompe a imersão e constrange os pais que buscam apenas um entretenimento saudável, poético e estimulante para seus filhos.

Para além da questão conceitual, a narrativa sofre com sérios problemas de ritmo ao longo dos seus 130 minutos de duração, o roteiro de Chris Butler tenta abraçar uma quantidade excessiva de temas e subtramas resultando em um segundo ato inflado e burocrático, as motivações dos vilões trocam de direção sem a construção emocional necessária,tornando o clímax menos impactante do que os efeitos visuais prometiam.
A narrativa se alonga demais, o ritmo oscila entre momentos contemplativos e sequências de ação que não ganham tensão real, e o arco emocional da protagonista fica diluído em meio a demasiadas subtramas, o filme parece mais interessado em construir um mundo do que em contar uma história realmente envolvente.

E é aqui que o descontrole se torna evidente, em sua ânsia de “atualizar” a história para o público contemporâneo, o filme insiste em introduzir ideologias de forma forçada e didática, especialmente em cenas envolvendo crianças e adolescentes, diálogos e situações que deveriam fluir naturalmente como parte da aventura são interrompidos por mensagens explícitas, como se o espectador infantil precisasse ser doutrinado em tempo real.

O que poderia ser uma jornada de descoberta e coragem se transforma, em diversos momentos, em um veículo de propaganda disfarçado de fantasia, essa inserção artificial quebra a imersão, tira o foco do conflito central e trata o público jovem como massa de manobra, e não como espectadores capazes de absorver uma história maravilhosa por conta própria.
Tecnicamente, o filme continua impressionante, a Laika demonstra mais uma vez domínio absoluto da animação artesanal.
Nota 2.5/5
O resultado é artificial, desconfortável e, no fim, contraproducente: em vez de enriquecer o mundo, empobrece a experiência.