O teatro político brasileiro encenou mais um ato de pura camaradagem institucional na última terça-feira. Com uma votação esmagadora de 63 votos a favor e apenas quatro contra, o plenário do Senado Federal pavimentou o caminho de Rodrigo Pacheco rumo ao Tribunal de Contas da União (TCU). A pressa e o consenso quase absoluto mostram que, quando o assunto é garantir o futuro dos seus, a engrenagem de Brasília funciona sem qualquer atrito.
A vaga foi aberta cirurgicamente após a renúncia conveniente de Bruno Dantas. O movimento escancara o tradicional jogo de cadeiras do poder, onde cargos vitalícios em órgãos de fiscalização financeira servem como moeda de troca e aposentadoria de luxo para políticos que buscam um porto seguro longe do escrutínio direto das urnas.
O padrinho da indicação não poderia ser outro senão Davi Alcolumbre, atual presidente do Senado e especialista na arte de articular interesses cruzados. Ao apresentar o projeto de decreto legislativo com o apoio de 20 senadores da base governista e da oposição, Alcolumbre provou que a ideologia em Brasília é apenas um detalhe estético quando há um banquete de cargos a ser distribuído.
No púlpito, Pacheco discursou com a habitual solenidade protocolar, afirmando saber a importância de um tribunal que exige a qualidade do recurso público. A ironia reside no fato de que um órgão técnico, responsável por fiscalizar as contas do governo, continuará sendo povoado por políticos profissionais cujo maior mérito técnico é saber costurar acordos de bastidores.
A trajetória de Pacheco reflete a clássica ascensão do establishment: ex-deputado federal, ex-presidente do Senado por duas vezes e advogado criminalista especializado em direito penal econômico internacional. Uma folha de serviços impecável para quem agora julgará as próprias contas e as de seus aliados, sob o verniz de uma suposta imparcialidade técnica.
Não se pode esquecer que Pacheco comandou o Senado durante os anos turbulentos da CPI da Covid-19. Na época, sua “neutralidade” irritou gregos e troianos, agindo como um amortecedor de crises que evitou rupturas maiores, mas também blindou figuras graúdas do cenário nacional, consolidando sua fama de mestre dos panos-quentes.
Para coroar a indicação, o senador Renan Calheiros assumiu o papel de relator da matéria, destilando elogios à “gestão serena, sábia e competente” do colega. Ouvir Calheiros discursar sobre sobriedade democrática e portos seguros é um teste de resistência para qualquer cidadão que ainda guarde alguma dose de ceticismo sobre a política nacional.
A indicação segue agora para a Câmara dos Deputados, onde o resultado já é amplamente previsível. O pragmatismo dos deputados dificilmente criará barreiras para um arranjo que já foi devidamente pacificado entre as lideranças partidárias que realmente controlam o orçamento do país.
O TCU, que teoricamente deveria funcionar como um cão de guarda técnico das finanças da União, consolida-se cada vez mais como um puxadinho do Congresso Nacional. O critério técnico exigido pela Constituição torna-se uma piada de salão quando o currículo mais valorizado é a capacidade de sobrevivência no lamaçal político de Brasília.
No final das contas, Rodrigo Pacheco garante uma cadeira confortável até os 75 anos de idade, com salário de ministro e foro privilegiado implícito. O contribuinte, por sua vez, assiste passivo a mais uma rodada desse monopólio de compadrio, financiando a festa de quem fiscaliza a si mesmo sem nunca perder a pose.