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O teatro do absurdo eleitoral: tapinhas nas costas, folgas de luxo e o vazio das terças-feiras

A terça-feira eleitoral provou que a corrida pela cadeira presidencial é uma mistura de maratona de autoajuda com turismo gastronômico-corporativo. Enquanto o eleitor tenta sobreviver à rotina, o cardápio de atividades dos postulantes ao Planalto variou entre o absoluto nada e promessas mirabolantes que fariam qualquer economista sério chorar no banho.

Comecemos pelos adeptos do “repouso remunerado”. Luiz Inácio Lula da Silva, Flávio Bolsonaro, Samara Martins e Clariana Barão decidiram que o país funciona muito bem sem a presença deles nas ruas. Declarar “sem agenda pública” em plena campanha é o ápice do luxo político, uma folga financiada pelo fundo eleitoral que o cidadão comum só pode sonhar em ter.

Onde houve ação, sobrou populismo médico. Ronaldo Caiado baixou na Santa Casa de São Paulo com o “Agiliza SUS” debaixo do braço, prometendo curar as filas de cirurgia num passe de mágica que envolve misturar o público com o privado. De quebra, o candidato sugeriu limitar as despesas obrigatórias em metade do PIB, uma ginástica fiscal que parece ótima no papel, mas ignora o colapso real da administração pública.

Mais ao sul, Romeu Zema aplicou a cartilha básica do neoliberalismo sapatênis em Joinville. Entre uma solenidade patriótica e afagos em empresários locais, Zema visitou uma escola de elite no Ideb para defender “acompanhamento”. É fácil elogiar a educação exemplar quando se está cercado por quem já tem tudo, ignorando a realidade das escolas que mal têm teto no restante do país.

A medalha de ouro em onipresença física e espiritual vai para Augusto Cury. O escritor-candidato conseguiu a proeza de discursar sobre a “beleza da democracia” na Expointer, no Rio Grande do Sul, e inaugurar a “Casa Cury” em Belo Horizonte no mesmo dia. Se a campanha falhar, Cury pelo menos garante a venda de mais alguns milhões de livros de inteligência emocional para os frustrados eleitores.

Enquanto uns viajam, outros choram as pitangas digitais. Wilson Grassi e Renan Santos passaram a terça-feira reclamando do ministro Dias Toffoli, que cortou o brinquedo favorito de ambos: a campanha na internet. Sem poder impulsionar postagens ou despejar bytes de propaganda na timeline alheia, restou-lhes a dura realidade de dar entrevistas explicando por que foram silenciados pelo TSE.

Na ala da militância jurássica, Rui Costa Pimenta escolheu a hora da xepa para panfletar na UnB. Nada mais estratégico do que tentar convencer estudantes famintos na fila do Restaurante Universitário de que a revolução socialista está próxima, antes que o estômago fale mais alto do que o manifesto partidário.

Na mesma linha nostálgica, Edmilson Costa gastou sola de sapato pelo centro de São Paulo. Caminhar pelo asfalto quente da capital paulista fingindo ouvir o povo é o rito de passagem obrigatório para quem sabe que terá menos de 1% dos votos, mas se recusa a abandonar o fetiche do corpo a corpo urbano.

Já Hertz Dias levou seu discurso contra a escala 6×1 para Santa Cruz do Sul. A pregação contra a jornada exaustiva é nobre e justa, mas o candidato parece esquecer que panfletar na rua para trabalhadores cansados que só querem chegar em casa é quase uma ironia cruel da própria rotina que ele promete combater.

No fim do dia, o rodízio alfabético da Justiça Eleitoral nivela o bilionário e o utópico, tratando todos com a mesma fingida seriedade. A terça-feira termina como começou: com o eleitorado anestesiado por promessas requentadas e a certeza de que, amanhã, o circo reabre com o mesmo picadeiro e palhaços ligeiramente diferentes.

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