Mais uma conferência do clima chega ao fim e o resultado é o de sempre: pilhas de papéis, discursos protocolares e absolutamente nenhuma ação prática contra a seca. Reunidos na gélida Ulaanbaatar, na Mongólia, os diplomatas da COP17 provaram que são especialistas em uma única coisa: empurrar o apocalipse com a barriga.
A grande façanha da vez foi adiar o acordo global para enfrentar as secas diretamente para a COP18, no Egito. Sob o pretexto de ‘amadurecer discussões’, governos decidiram que o desespero de milhões de pessoas pode esperar mais dois anos na fila da burocracia internacional.
O cinismo da decisão ganha contornos bizarros diante dos fatos. Enquanto os negociadores debatiam semântica em salas climatizadas, o Rio Colorado secava nos Estados Unidos, a Europa registrava marcas históricas de estiagem e o Super El Niño ameaçava devastar ecossistemas inteiros, do Sul da África à Amazônia.
A dinâmica do fracasso é velha conhecida. De um lado, os países africanos, historicamente devastados pela falta de água, imploram por um mecanismo financeiro obrigatório de socorro. Do outro, as nações ricas fecham a carteira e defendem a piada de mau gosto chamada ‘adesão voluntária’.
A União Europeia, sempre pronta para ditar regras ambientais ao resto do planeta, liderou o boicote a qualquer compromisso financeiro obrigatório. Preocupados com as crises hídricas em seus próprios quintais, os governos europeus deixaram claro que solidariedade global só existe quando não custa um centavo ao contribuinte local.
Para mascarar a mesquinharia, os países ricos insistem que fundos já existentes, como o Fundo Global para o Meio Ambiente, dão conta do recado. Uma mentira técnica conveniente, já que esses mecanismos tratam a seca como um subtema da degradação de terras, ignorando deliberadamente a urgência da crise hídrica.
Representantes de ONGs como a WWF e a Wetlands Internacional saíram da Mongólia disparando palavras como ‘frustrante’ e ‘inacreditável’. É difícil entender a surpresa de quem acompanha esse teatro anual, onde a única certeza é a covardia política disfarçada de diplomacia multilateral.
Como prêmio de consolação para evitar o vexame diplomático completo, lançaram o DRIF, um mecanismo financeiro voluntário que pretende mobilizar 400 milhões de dólares. Diante da escala da catástrofe global, essa quantia é uma piada de mau gosto, uma gota d’água em um deserto de negligência estatal.
Também apresentaram, com pompa acadêmica, o Índice de Resiliência à Seca. Agora, as comunidades vulneráveis que estão sem água para beber terão a oportunidade científica de medir e monitorar, com precisão cirúrgica, o tamanho exato de sua própria desgraça.
No final das contas, os jatos executivos decolam da Mongólia de volta para o conforto do primeiro mundo, deixando para trás um rastro de promessas vazias. Para as populações que já convivem com a terra rachada, resta apenas o gosto amargo de mais um espetáculo burocrático inútil.