O cinema sul-coreano já mostrou diversas vezes que sabe transformar histórias de sobrevivência em experiências intensas, violentas e, principalmente, imprevisíveis. E quando o assunto envolve vírus, criaturas infectadas e seres humanos tentando escapar de uma situação completamente fora de controle, poucos nomes despertam tanta expectativa quanto Yeon Sang-ho, diretor de Invasão Zumbi.
Agora, o cineasta retorna ao território do terror com “Zona Zero”, produção que mistura terror, ação, ficção científica e suspense para apresentar uma história de sobrevivência ambientada em um dos lugares mais improváveis para uma tragédia desse tamanho: uma conferência de biotecnologia.
A história começa aparentemente distante daquele caos que tradicionalmente associamos ao cinema de zumbis, estamos diante de uma conferência dedicada à biotecnologia, cientistas, pesquisadores e especialistas estão reunidos em um ambiente controlado, cercados por tecnologia e conhecimento, mas basta a liberação de um vírus de rápida mutação para que toda aquela sensação de segurança desapareça, o que acontece depois é uma verdadeira corrida contra o tempo.

As autoridades isolam completamente a instalação na tentativa de impedir que a contaminação ultrapasse os limites do local. Só que existe um problema: o vírus não funciona exatamente como os personagens imaginavam, os infectados não simplesmente se transformam em criaturas que atacam qualquer pessoa pelo caminho, eles passam por alterações imprevisíveis, e justamente essa capacidade de evolução transforma a ameaça em algo muito mais difícil de combater, e é aqui está uma das principais cartas na manga de “Zona Zero”, o filme não está interessado apenas em apresentar criaturas correndo atrás dos protagonistas, ele quer brincar com a ideia de que as regras da sobrevivência podem mudar a qualquer momento.
É impossível assistir a “Zona Zero” sem lembrar de outros trabalhos de Yeon Sang-ho, principalmente Invasão Zumbi, filme que ajudou a colocar o diretor em evidência internacional, porém não é simplesmente uma tentativa de repetir aquela fórmula, o longa procura estabelecer sua própria identidade dentro de um gênero que já foi explorado inúmeras vezes.

A grande diferença está justamente na maneira como os infectados são apresentados, existe uma preocupação maior em transformar a infecção em um processo de evolução, o perigo não é necessariamente previsível, o espectador precisa acompanhar o desenvolvimento da ameaça junto com os personagens, e isso acerta em criar uma sensação constante de insegurança, você começa a entender uma determinada regra e, pouco depois, o filme apresenta uma nova possibilidade, é como jogar um videogame em que alguém modifica as regras enquanto você ainda está tentando descobrir como sobreviver.
Outro ponto que merece destaque é a utilização do espaço, a ideia de manter os personagens presos dentro de uma instalação enquanto o perigo cresce ao redor deles é bastante eficiente, o ambiente deixa de ser simplesmente um cenário e passa a funcionar como uma espécie de personagem, corredores, salas, laboratórios e áreas isoladas ganham importância porque qualquer espaço pode esconder uma nova ameaça, a sensação de confinamento contribui para o suspense e ajuda o filme a construir uma atmosfera desconfortável.
No centro da narrativa está Jun Ji-hyun, interpretando Se-jeong, professora de biotecnologia que acaba envolvida diretamente no desastre, a personagem não é simplesmente colocada na história para fugir das criaturas, seu conhecimento científico passa a ser fundamental para compreender aquilo que está acontecendo, isso é importante porque evita que “Zona Zero” se transforme apenas em uma sequência interminável de perseguições.

“Zona Zero” também merece crédito por não tentar transformar sua história em algo excessivamente filosófico, existe uma discussão sobre ciência, responsabilidade, sobrevivência e controle, mas o filme sabe que, antes de tudo, é um espetáculo de gênero, ele quer entregar terror, ação, quer colocar seus personagens em situações absurdas e quer fazer o público pensar: “Como é que eles vão sair dessa?” E isso é cinema de entretenimento funcionando.
“Zona Zero” não reinventa completamente o cinema de infectados, mas encontra caminhos interessantes dentro de um gênero que já foi explorado até a exaustão, Yeon Sang-ho demonstra novamente domínio sobre o suspense e sobre a construção de situações de sobrevivência, o conceito dos infectados e a capacidade de evolução da ameaça são os grandes diferenciais da produção, oelenco entrega boas atuações, Jun Ji-hyun funciona muito bem como protagonista e a atmosfera claustrofóbica ajuda a manter o público preso à história.
Ainda assim, para quem gosta de terror sul-coreano, ficção científica, criaturas, vírus mutantes e histórias de sobrevivência, “Zona Zero” é uma opção que merece uma conferida na tela grande.
Nota 4/5
É uma nova tentativa de Yeon Sang-ho de brincar com o gênero e mostrar que, quando se trata de uma epidemia cinematográfica, o maior perigo pode ser justamente aquilo que ainda não conhecemos.