A construção de um novo centro de tratamento de ebola em Mongala, no leste da República Democrática do Congo, expõe as fragilidades de uma resposta humanitária que especialistas consideram tardia. Enquanto as obras avançam na cidade, profissionais de saúde locais alertam que a demora em implementar medidas de contenção eficazes desde o início do surto, em junho, resultou em um número de mortes evitáveis que poderia ter sido significativamente menor.
O cenário em Mongala contrasta com outras localidades da província de Ituri, onde a mobilização ocorreu poucas semanas após a declaração de emergência sanitária pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em maio. Com mais de 3.900 mortes registradas no país desde então, o surto atual é classificado como o segundo maior da história, exigindo uma logística complexa que, em Mongala, falhou em chegar a tempo.
Desafios logísticos e barreiras geográficas
A dificuldade de acesso à região é apontada como um dos principais entraves para a assistência internacional. A infraestrutura precária, marcada por estradas de terra esburacadas e lamacentas, torna o deslocamento diário de equipes a partir de Bunia, a capital regional, uma operação de três horas sujeita a interrupções constantes. Além disso, a presença de insurgentes armados que instalam postos de controle nas rotas de acesso eleva o risco para os trabalhadores humanitários.
A escassez de recursos também forçou decisões críticas por parte de órgãos como a OMS. Segundo Luca Fontana, alto funcionário da organização, cortes na ajuda internacional obrigaram a priorização de áreas específicas, deixando zonas como Mongala em uma situação de vulnerabilidade extrema. Profissionais locais relatam um sentimento de abandono, descrevendo um período inicial onde a ausência de suporte externo foi total.
Precariedade no atendimento hospitalar
Sem uma estrutura adequada, o hospital distrital de Mongala tornou-se o epicentro improvisado do combate à doença. Nos meses iniciais, pacientes eram mantidos em uma casa de barro sem ventilação e com chão de terra, condições que facilitam a propagação do vírus. A falta de separação entre zonas de risco e áreas seguras, comum em centros especializados, permitiu que pessoas com sintomas circulassem livremente pelo pátio do hospital.
A situação é agravada pela exposição dos próprios profissionais de saúde, que enfrentam o vírus com recursos limitados. O Dr. Jacques Savo Bamuhiga, diretor médico local, relatou que ao menos cinco enfermeiros e um médico foram infectados. O descarte inadequado de materiais de proteção, queimados a céu aberto próximo a áreas de circulação de moradores, ilustra a falta de protocolos de biossegurança que deveriam ser padrão em um cenário de epidemia.
Perspectivas de contenção e controle
Apesar do histórico de negligência, há sinais de que a resposta esteja ganhando tração. Dados dos Centros Africanos de Controle e Prevenção de Doenças sugerem que o número de novos casos semanais atingiu um pico em agosto, indicando uma possível estabilização. A futura unidade, que será administrada pela organização humanitária Alima, promete oferecer a infraestrutura necessária para reverter o quadro de descontrole.
O coordenador sênior da ONU para a resposta ao ebola, Julien Harneis, reforça que a velocidade é o fator determinante em qualquer epidemia. A lição deixada pelo caso de Mongala serve como um alerta sobre os impactos da lentidão na mobilização de recursos, reforçando que, em crises sanitárias de grande escala, cada semana de atraso representa um custo humano incalculável para as comunidades afetadas.