O avanço acelerado da inteligência artificial tem gerado um intenso debate no mercado global de seguros. Durante a Cúpula de Risco Digital da NetDiligence, realizada na Filadélfia, especialistas do setor divergiram sobre como estruturar apólices capazes de cobrir os riscos emergentes associados a essa tecnologia, que já é utilizada por criminosos para potencializar ataques cibernéticos.
Desafios na categorização de riscos da inteligência artificial
Os painelistas apresentaram visões distintas sobre a natureza da exposição à IA. Enquanto alguns defendem que o tema deve ser tratado sob a ótica de responsabilidade civil de diretores e executivos, outros argumentam que a questão exige uma análise técnica mais segmentada. Para Gail Arkin, da Berkley Cyber Risk Solutions, o problema transcende a esfera digital, abrangendo questões como violação de direitos de terceiros e vieses algorítmicos que não estariam contemplados em apólices cibernéticas tradicionais.
Por outro lado, Tim Nazzaro, da Hartford Steam Boiler, propõe uma divisão em três categorias: riscos de segurança e privacidade, responsabilidade por práticas trabalhistas e novos riscos ainda sem classificação definida. Nazzaro alertou para o perigo de seguradoras ampliarem coberturas sem a devida subscrição, especialmente diante de novas regulamentações que podem impor multas não cobertas por contratos atuais.
A complexidade da análise de sinistros e o papel dos corretores
A identificação do uso de IA em incidentes de segurança é um dos maiores obstáculos apontados pelos especialistas. Danielle Roth, da Axa XL, destacou que as seguradoras não devem tratar a IA como um conceito único, mas sim retornar aos fundamentos da análise de cobertura. Segundo ela, em muitos casos de violação, pode ser impossível determinar com precisão se a inteligência artificial foi o vetor principal do ataque.
A recomendação central para as empresas é o trabalho conjunto com corretores para uma avaliação de riscos personalizada. A percepção é de que a exposição à tecnologia já está presente de forma silenciosa em praticamente todas as apólices vigentes, exigindo uma revisão cuidadosa dos termos contratuais para evitar surpresas em casos de sinistros complexos.
Cenário atual de ameaças cibernéticas e extorsão
O ambiente de ameaças continua em transformação, com grupos como o ShinyHunters utilizando IA para otimizar ataques a serviços de computação em nuvem. Segundo Michael Brunetti, da MOXFIVE, a tecnologia permite que invasores vasculhem dados sensíveis e criem mensagens de extorsão em minutos, acelerando processos que anteriormente levavam semanas. O setor jurídico, especificamente escritórios de advocacia, tem sido um alvo frequente, superando o setor de saúde em volume de ataques.
Apesar do foco na tecnologia, o fator humano permanece como um ponto crítico. A maioria das invasões ainda ocorre via phishing, reforçando que a segurança cibernética depende tanto de ferramentas avançadas quanto da capacitação das equipes. A NetDiligence continua a monitorar como essas dinâmicas influenciarão o mercado de seguros nos próximos anos.