A combinação entre a abertura comercial promovida pelo governo de Javier Milei e os preços competitivos da indústria asiática provocou uma mudança histórica na balança comercial da América do Sul. A China ultrapassou o Brasil e tornou-se o principal fornecedor de produtos para a Argentina no primeiro semestre, encolhendo a fatia de mercado historicamente dominada pela indústria brasileira.
O avanço chinês atinge diretamente o coração das exportações do Brasil para o país vizinho: bens manufaturados de alto valor agregado, como veículos, autopeças, máquinas e equipamentos industriais.
Os números da virada comercial
Dados oficiais do Instituto Nacional de Estatística e Censos (Indec) da Argentina refletem a desaceleração das vendas brasileiras e a expansão chinesa:
Inversão de Posição: As importações argentinas vindas da China superaram as do Brasil em mais de US$ 300 milhões no acumulado dos primeiros meses do ano.
Queda nas Vendas Brasileiras: As exportações do Brasil para a Argentina registraram uma retratação superior a 18% a 19%, reduzindo significativamente o superávit comercial brasileiro com o parceiro do Mercosul.
Retração da Indústria Nacional: Para o setor manufatureiro do Brasil, a Argentina é o principal comprador global de produtos transformados. O recuo no país vizinho afeta diretamente o ritmo de produção nas fábricas brasileiras.
Fatores que impulsionaram o avanço chinês
A perda de terreno das mercadorias brasileiras está associada a mudanças regulatórias e econômicas no cenário argentino:
Abertura Comercial e Isenção Tarifária: As reformas desregulatórias do governo Milei simplificaram os registros de importação e liberaram cotas com imposto de importação zero para veículos elétricos e híbridos, benefício amplamente aproveitado por montadoras chinesas.
Ofensiva no Setor Automotivo: Modelos chineses eletrificados e com preços agressivos ganharam fatia considerável das vendas no mercado argentino. A participação de automóveis fabricados no Brasil caiu de mais de 80% do total importado pela Argentina para níveis próximos a 55%.
Aperto Orçamentário e Preço: A corrosão do poder de compra das famílias e a retração de consumo interno na Argentina levaram consumidores e empresas a priorizarem bens de menor custo, favorecendo produtos chineses em detrimento de concorrentes regionais.
Desafios para a integração do Mercosul
O avanço da China somado à aproximação comercial da Argentina com outros parceiros internacionais põe em xeque a vantagem competitiva garantida pela Tarifa Externa Comum (TEC) e pelo livre comércio intrabloco do Mercosul.
O desafio da competitividade industrial: Entidades do setor produtivo brasileiro, como a Anfavea (montadoras) e a AEB (comércio exterior), apontam que a indústria nacional precisará acelerar ganhos de produtividade e a transição tecnológica para frear a perda de espaço nas cadeias de suprimento sul-americanas.