CAMPINAS, SP — O clima nos bastidores da Associação Atlética Ponte Preta atingiu o seu ponto mais crítico em 126 anos de história. A crise financeira que assombra a tradicional equipe de Campinas extrapolou as quatro linhas do gramado e se transformou em um drama humano e administrativo dentro do Estádio Moisés Lucarelli.
Em um reflexo drástico do colapso econômico, o departamento de nutrição do clube fixou um aviso no refeitório determinando o racionamento de comida: cada funcionário tem direito a consumir apenas um pão por dia no café da manhã. A medida extrema veio à tona logo após o clube ser processado em mais de R$ 53 mil por uma padaria local, que fornecia os alimentos e não recebia os pagamentos devidos desde maio de 2025. O cenário foi resumido de forma direta pelo diretor jurídico da Macaca, José Henrique Specie: a Ponte Preta vive uma situação de “quase insolvência”.
O Drama Atrás das Cortinas: Racionamento e Salários Atrasados
O corte de alimentos expôs uma ferida ainda mais profunda: a sobrevivência das famílias que dependem do clube. A Ponte Preta acumula meses de atrasos salariais crônicos, afetando severamente os funcionários operacionais e administrativos. Diferente dos atletas profissionais, esses colaboradores recebem salários de base e sofrem diretamente com o racionamento e a falta de recursos básicos para o dia a dia.
A asfixia financeira também paralisou o futebol. O elenco de jogadores chegou a decretar greve com paralisação total das atividades e ameaça de W.O. em protesto contra a diretoria. O clube acumula pendências severas que chegam a até 6 meses de atraso em direitos de imagem e vencimentos de parte do plantel, além de sofrer com punições da FIFA e da CNRD que impedem o registro de novos atletas. O reflexo institucional é pesado: o time enfrenta um momento desastroso na temporada, amargando a lanterna da Série B do Campeonato Brasileiro e o fantasma do rebaixamento.
A Rejeição da SAF e o Abismo de R$ 367 Milhões
A grande esperança da diretoria para estancar o rombo financeiro — estimado hoje em uma dívida total de R$ 367 milhões e um déficit operacional mensal de R$ 2,8 milhões — era a aprovação de uma proposta bilionária para transformar o clube em Sociedade Anônima do Futebol (SAF).
No entanto, em Assembleia Geral Extraordinária realizada no dia 19 de setembro de 2026, os associados do clube rejeitaram a proposta de criação da SAF. A oposição barrou o projeto alegando falta de garantias e os votos favoráveis não atingiram o quórum mínimo exigido pelo estatuto. Com o processo de privatização de volta à estaca zero e sem novas fontes de receita no horizonte, a diretoria jurídica alertou que o clube caminha a passos largos para a falência, tendo a recuperação judicial como uma das únicas cartadas restantes.
O Contraste com o Pioneirismo e a Glória do Passado
Ver a Ponte Preta nessa situação choca os amantes do futebol pelo peso histórico do clube. Fundada em 11 de agosto de 1900, à sombra de paineiras por jovens estudantes do colégio Culto à Ciência, a Macaca é o clube de futebol em atividade contínua mais antigo do Brasil. [1]
Nota histórica: O título de clube de futebol mais antigo do país pertencia legalmente ao Sport Club Rio Grande, fundado 23 dias antes, em julho de 1900. No entanto, após o rival gaúcho passar por períodos de inatividade e ver suas operações profissionais serem interrompidas ao longo do século, a Ponte Preta herdou o posto definitivo de longevidade ininterrupta no esporte nacional. Clubes ainda mais velhos, como o São Paulo Athletic Club (1888), também extinguiram seus departamentos de futebol profissional ao longo do tempo. [1, 2, 3, 4, 5]
O nome nasceu como homenagem direta ao desenvolvimento ferroviário de Campinas: os trilhos exigiram uma ponte de madeira que, protegida por piche e alcatrão, ficou totalmente enegrecida e batizou o bairro. Além da longevidade, o clube carrega o orgulho histórico de ter sido a primeira democracia racial do futebol brasileiro, tendo escalado o jovem negro Miguel do Carmo já no ano de sua fundação, quebrando as barreiras de um esporte que na época era restrito à elite branca aristocrática.
Até mesmo a alcunha de “Macaca” e o estádio Moisés Lucarelli nasceram da força de sua gente. O apelido, que surgiu de insultos racistas de torcidas rivais, foi adotado com orgulho pela torcida alvinegra como símbolo de resistência. Já o seu icônico estádio, carinhosamente chamado de “Majestoso”, foi inteiramente erguido pelos próprios torcedores em um mutirão comunitário operário na década de 1940, tijolo por tijolo.
Hoje, aquela mesma instituição construída com a união e o suor de sua comunidade popular luta desesperadamente para sobreviver politicamente e para garantir o básico — desde o salário de seus operários até o pão de cada dia no refeitório.