Crônica de Jota Jr.: Entre a farsa do hino, a ilusão das SAFs e os gramados de plástico, o futebol brasileiro respira por aparelhos.
Olho para as imagens do Maracanã tomado por uma linha de jardas, postes em formato de “Y” e atletas com armaduras gigantescas, e não posso deixar de me fazer uma pergunta honesta, daquelas que o torcedor comum esconde atrás do deslumbramento das redes sociais: quantos daqueles 72 mil torcedores que lotaram o estádio realmente conhecem, a fundo, as regras complexas do futebol americano? Quantos ali assistem ao esporte religiosamente na televisão?
Não me entendam mal. Não estou dizendo que ninguém conhece ou acompanha. O Brasil descobriu a bola oval, sim. Mas há algo muito maior e mais preocupante acontecendo debaixo dos nossos narizes, um fenômeno silencioso que está asfixiando e prejudicando o verdadeiro futebol brasileiro. Nossos templos sagrados, construídos para a mística da bola rolando, viraram arenas multiuso de entretenimento desenfreado. Megashows, eventos corporativos e, agora, ligas estrangeiras invadem os palcos de uma forma avassaladora.
O preço dessa modernidade artificial salta aos olhos na rodada seguinte: gramados completamente destruídos, esburacados, transformados em pastos onde a bola teima em quicar direito. Como exigir um passe refinado, uma triangulação rápida ou um drible curto quando o palco principal do espetáculo é sacrificado em nome do lucro de grandes produtoras? Na verdade, o futebol brasileiro hoje respira por aparelhos.
A hipocrisia do civismo de ocasião
Mas o que mais me chamou a atenção nessa última linha de espetáculo foi a comoção generalizada em torno do Hino Nacional Brasileiro, cantado por Péricles e aplaudido pelos astros americanos como “uma loucura emocionante” . É preciso ter coragem para apontar a profunda contradição desse momento. No cotidiano das nossas arquibancadas, no futebol de verdade de toda semana, o hino virou um estorvo protocolar solenemente ignorado. Mal começa a tocar o hino no Brasileirão, os batuques das organizadas sobem o tom, os fogos estouram e a torcida continua cantando suas próprias músicas de incentivo ao clube, atropelando a letra da pátria sem o menor pudor.
Por que, então, esse súbito civismo no jogo da NFL? A resposta é dolorosa: o hino ali deixou de ser um símbolo de soberania e virou fetiche de gringo ver, abertura de show pop. Uma plateia elitizada e gourmetizada cantou bonito, sim, mas cantou para a tela do celular, preocupada em gerar engajamento no Instagram. É o patriotismo de ocasião, que se curva ao protocolo americano enquanto despreza a liturgia no próprio campeonato nacional.
A ladeira abaixo após o Penta e a ilusão das SAFs
O reflexo dessa perda de identidade está escancarado nos nossos resultados. Desde a conquista do Pentacampeonato em 2002, o que se vê é uma Seleção Brasileira em persistente queda de produção . Virou rotina passar vergonha. Recentemente, amargamos um empate melancólico contra a Austrália em amistoso . Em Copas do Mundo, o outrora bicho-papão do futebol virou freguês de seleções da segunda prateleira europeia: caímos para a Bélgica , fomos eliminados pela Croácia e, no último Mundial, fomos despachados precocemente pela Noruega . O sumiço dos nossos craques de outrora não é culpa única e exclusiva de falhas no trabalho de base . Estamos destruindo a engrenagem interna do nosso futebol.
Enquanto a Seleção desaba, nossos clubes tradicionais, afundados em dívidas e semi-falidos por gestões criminosas, buscam a salvação no modelo das SAFs. Mas essa “tábua de salvação” esconde uma armadilha. Muitos desses novos donos esquecem o que os clubes realmente devem à sua história e à sua comunidade. Investem fortunas de forma imediatista para tentar montar times campeões em um único ano; no ano seguinte, o dinheiro some, o planejamento desmorona e o clube volta a brigar desesperadamente para não cair. É a gestão do trimestre substituindo o amor institucional.
Salvam-se dois ou três times que hoje mandam na América do Sul, mas que, ironicamente, são amplamente criticados pelo resto do país simplesmente porque resolveram se organizar administrativamente. E para piorar o cenário técnico, aceitamos a proliferação dos gramados de plástico. O tapete sintético virou a norma porque os clubes priorizam o lucro dos shows de meio de semana em detrimento da saúde dos atletas e da dinâmica natural do esporte. É o império do plástico substituindo a poesia da grama natural.
A canetada populista e o show da bola na rede
Como se não bastasse o sufoco financeiro e a descaracterização técnica, o futebol ainda vira refém da política partidária. Vemos governos que, pensando única e exclusivamente em reeleição, tomam ações puramente populistas para conquistar votos de ocasião. Com uma única canetada, motivada por interesses eleitoreiros, atropelam estatutos, interferem em mandos de campo e impõem decisões arbitrárias que asfixiam e prejudicam o planejamento financeiro e esportivo das agremiações. O clube, no fim das contas, é quem paga a conta da festa política.
Precisamos, urgentemente, fazer um exercício de retorno ao passado. Olhar para trás e lembrar de uma época não tão distante em que o Brasil revelava gênios em profusão. Naquele tempo, nossos estádios eram reservados para um único e exclusivo espetáculo: o espetáculo da bola nos pés.
O público ia ao campo para ver a ginga que o mundo inteiro tentava copiar e não conseguia. Ia para aplaudir o drible desconcertante, a criatividade do improviso, a genialidade que nascia da pura intuição do atleta brasileiro. O show não vinha do show do intervalo, de pirotecnia de LED ou de hino cantado para impressionar câmera de celular estrangeiro. O verdadeiro show era o da bola na rede.
Se não protegermos o nosso templo, a nossa liturgia, os nossos gramados e a integridade dos nossos clubes contra o apetite dos políticos e dos empresários de eventos, o futebol brasileiro continuará assistindo, como mero coadjuvante gourmetizado, ao brilho de espetáculos que vêm de fora, enquanto a nossa própria bola, aquela que nos deu cinco estrelas no peito, morre de fome por falta de carinho.