A dinâmica das eleições de 2026 revela um movimento claro de concentração de votos em torno dos candidatos que lideram as pesquisas nos principais estados brasileiros. O fenômeno, conhecido como voto útil, reflete a estratégia do eleitor em abandonar opções com menor viabilidade para evitar a vitória de um adversário rejeitado. Esse comportamento, descrito pelo cientista político Gary Cox em sua obra Making Votes Count, demonstra que o eleitor brasileiro está realizando cálculos pragmáticos à medida que o primeiro turno se aproxima.
Mecanismos da deserção estratégica nas urnas
Para que o voto útil ocorra, três condições fundamentais precisam estar presentes: o interesse do eleitor no resultado, a clareza sobre a viabilidade dos candidatos e a disseminação dessas informações por meio de pesquisas eleitorais. Quando esses fatores convergem, a disputa tende a se polarizar entre os dois nomes com chances reais, enquanto as candidaturas de terceira via perdem espaço gradativamente.
Dados recentes da Justiça Eleitoral e levantamentos da Quaest, realizados entre 8 e 29 de setembro de 2026, confirmam essa tendência. Em estados como Pernambuco, Rio de Janeiro, São Paulo e Distrito Federal, o bloco de candidatos fora da polarização apresentou queda, enquanto os líderes da disputa ampliaram suas margens de vantagem.
Impacto da polarização nos estados
Em Pernambuco, a redução do bloco de terceira via de 10% para 6% coincidiu com o crescimento do presidente Lula (PT), que ampliou sua vantagem de 30 para 38 pontos percentuais. Movimento similar ocorreu no Rio de Janeiro e em São Paulo, onde a migração de votos favoreceu o candidato Flávio Bolsonaro (PL), consolidando sua liderança frente ao cenário anterior.
O Distrito Federal apresenta o exemplo mais nítido dessa deserção estratégica. Com a queda da terceira via de 24% para 16%, Flávio Bolsonaro viu sua vantagem sobre Lula subir para 6 pontos. Nesses locais, o voto útil atua como um catalisador, fortalecendo quem já detém a dianteira na preferência do eleitorado local.
Minas Gerais e a exceção do equilíbrio
Minas Gerais mantém um cenário distinto, funcionando como a exceção que valida a lógica de Cox. Embora a terceira via tenha encolhido de 19% para 14%, tanto Lula quanto Flávio Bolsonaro registraram crescimentos proporcionais, mantendo a vantagem do presidente em 4 pontos. A ausência de uma liderança consolidada e incontestável no estado impede, até o momento, que o voto útil beneficie um lado específico da disputa.
Para os candidatos fora da polarização, o cenário torna-se cada vez mais desafiador. À medida que as pesquisas reforçam a hierarquia dos concorrentes, o custo de insistir em uma candidatura com pouca viabilidade torna-se evidente para o eleitor. O movimento de deserção estratégica tende a se acelerar na reta final, confirmando a tendência de que o voto útil não possui ideologia, mas segue a lógica da viabilidade eleitoral.