O reencontro entre o cinema de autor hiperbólico e o estrelato hollywoodiano ganha sua máxima expressão em Digger (2026), novo e aguardado longa-metragem dirigido pelo mexicano Alejandro González Iñárritu (Birdman, O Regresso), coescrito ao lado de Alexander Dinelaris, Nicolás Giacobone e Sabina Berman, o filme escala uma premissa ecologicamente cataclísmica para entregar uma sátira ácida sobre o poder, a cultura da celebridade e a incapacidade do homem contemporâneo de enxergar o mundo além de suas próprias necessidades de protagonismo.
Na linha de frente dessa empreitada está Tom Cruise, em um dos papéis mais excêntricos e arriscados de toda a sua trajetória, despido do habitual carisma heroico que construiu sua carreira em franquias de ação, Cruise entrega uma atuação física, extravagante e despudorada que divide opiniões, mas consolida Digger como um dos eventos cinematográficos mais instigantes e divisivos do ano.
Em Digger, Tom Cruise vive Digger Rockwell, um magnata do setor petrolífero cuja ganância desenfreada culmina na aceleração acidental de um colapso ecológico e no derretimento iminente de uma geleira crucial, diante da ameaça global e da iminência do caos ambiental, Rockwell não busca redenção pelo arrependimento ou pelo silêncio, em vez disso, lança-se em uma agressiva e absurda campanha de relações públicas.

Movido por um ego desmedido e pelo pavor do esquecimento, Digger tenta convencer governos, cientistas e a opinião pública global de que ele é a única pessoa no planeta capaz de resolver o problema que ele próprio gerou, o embate deixa de ser uma mera luta pela sobrevivência ecológica para se transformar em um festival de vaidades políticos e corporativos.
Em meio à crise, cruzam o caminho de Rockwell figuras como o Dr. Ganesh (Riz Ahmed), um cientista brilhante cuja autoridade técnica é constantemente suplantada e humilhada pela força do capital; o Presidente dos Estados Unidos (John Goodman) e seu covarde vice (Michael Stuhlbarg); além da pragmática irmã do magnata, Emma (Sandra Hüller).

O centro do debate crítico de Digger reside na forma como Iñárritu desconstruiu o ícone Tom Cruise, passando por uma transformação física marcante e maquiagem pesada (Cruise passa por uma maquiagem que emula um senhor de 64 anos sendo que o jovial ator tem a mesma idade de seu personagem), ele transforma a energia frenética que costuma usar em sequências de ação em uma força motriz de puro narcisismo.
Rockwell é o arquétipo espalhafatoso, incapaz de ouvir e consumido pelo desejo de aprovação, em uma das sequências mais destacadas pela crítica ambientada em um anfiteatro, o ator entrega um monólogo teatral vigoroso e hipnótico, escancarando as entranhas da espetaculização da política contemporânea.

Esteticamente, Digger carrega a assinatura inconfundível do cinema de Iñárritu, a câmera se movimenta com urgência e fluidez, utilizando enquadramentos arrojados para ridicularizar a insignificância de Rockwell diante dos cenários gigantescos da natureza prestes a ruir, a trilha sonora orquestral atua como uma maestria viva, intensifica a sensação de colapso iminente.

Por outro lado, o tom propositadamente caricato e a falta de sutileza das mensagens do roteiro pode dividir-nosos espectadores, ao optar pelo exagero teatral e por diálogos estridentes, a direção por vezes resvala na extensão exacerbada da narrativa, o filme não tem um pingo de sobriedade, o que pode afastar o público em busca de um drama climático tradicional.
Digger não tem resposta fácil , é sobre o absurdo do ego humano diante da tragédia e a busca desesperada por aplausos em meio ao Apocalipse, Alejandro G. Iñárritu e Tom Cruise entregam uma obra incômoda, imperfeita em seus excessos, porém provocativa e impossível de ser ignorada.
Nota 3.5/5