Adicionar procedimentos complementares em tratamentos de fertilização in vitro não é garantia de aumento nas taxas de gravidez ou de nascimento de bebês. Uma ampla revisão sistemática com meta-análise, publicada na revista científica The Lancet Obstetrics, Gynaecology & Women’s Health, apontou que a maioria das chamadas técnicas extras carece de evidências sólidas sobre seus reais benefícios.
A pesquisa investigou dez procedimentos adicionais frequentemente oferecidos a pacientes em clínicas de reprodução assistida. Para a maior parte dessas intervenções, os pesquisadores concluíram que os dados disponíveis na literatura médica são insuficientes, inconclusivos ou não demonstram qualquer vantagem clara em comparação com os métodos tradicionais.
Questionamentos sobre a eficácia de intervenções extras
O ginecologista Denis Schapira Wajman, especialista em reprodução humana do Einstein Hospital Israelita, destacou que as conclusões do estudo reforçam um alerta constante entre os médicos da área. Segundo o especialista, muitas estratégias foram integradas à rotina médica antes de demonstrarem efetividade comprovada.
“Ele confirma uma preocupação que especialistas e sociedades científicas já levantavam: muitas dessas técnicas foram incorporadas à prática antes de termos evidências sólidas de que realmente aumentam a chance de nascimento de um bebê”, explicou Wajman. O médico pontuou ainda que, no cenário da reprodução assistida, nem sempre realizar mais procedimentos se traduz em melhores resultados para a paciente.
Testes para seleção de embrião e receptividade na fertilização
As dez intervenções analisadas pelo estudo possuem objetivos distintos na tentativa de otimizar os ciclos de fertilização. Algumas focam no aprimoramento da seleção embrionária, enquanto outras buscam adaptar as condições do endométrio para melhorar a taxa de fixação no tecido uterino.
Entre as ferramentas avaliadas está o teste genético PGT-A, realizado a partir da biópsia de células do embrião antes da transferência. A técnica busca identificar alterações cromossômicas para selecionar embriões e reduzir os riscos de aborto. Outro procedimento analisado foi o teste de receptividade endometrial, projetado para indicar a janela ideal de transferência.
Procedimentos experimentais e manipuladores do endométrio
A análise também incluiu práticas como a lesão endometrial, conhecida como endometrial scratching, intervenção que busca induzir um processo regenerativo no tecido uterino. A conduta, no entanto, não é recomendada como rotina pelos órgãos médicos.
Tratamentos considerados experimentais, a exemplo da aplicação de plasma rico em plaquetas no útero ou nos ovários e o uso de intralipídios por via intravenosa, também foram examinados. Os autores do estudo concluíram que apenas três das dez técnicas registraram sinais pontuais de benefício em desfechos específicos, mantendo um nível de evidência considerado frágil e limitado.