O terror psicológico e o sobrenatural sempre encontraram no ambiente doméstico e, mais especificamente, na figura materna um dos seus terrenos mais férteis de inquietação, de clássicos imortais como O Bebê de Rosemary e O Iluminado a sucessos contemporâneos da produtora Blumhouse, a premissa de que a maior ameaça à segurança de uma criança pode habitar dentro do próprio lar carrega uma carga dramática e simbólica quase infalível.
Em Outra Mamãe (Other Mommy, 2026), novo longa-metragem dirigido por Rob Savage, o público é convidado a encarar os medos primordiais da infância sob uma ótica brutal, estilizada e marcadamente contemporânea, contudo, apesar de pontuado por momentos de inegável apelo estético e atuações comprometidas, o filme entrega um resultado morno: oscila perigosamente entre a construção de uma atmosfera perturbadora e a rendição aos artifícios genéricos de sustos fáceis.
A narrativa foca na rotina da pequena Bela (Arabella Olivia Clark), uma garota de oito anos cujos dias são marcados pelo visível esfacelamento do casamento de seus pais, em meio ao distanciamento emocional e à ausência constante da mãe, Ursula (interpretada por uma sempre competente e entregue Jessica Chastain), e ao desespero silencioso do pai, Russ (Jay Duplass), a menina passa a buscar refúgio em sua própria imaginação, é nesse cenário de fragilidade afetuosa que surge uma figura sinistra vinda dos cantos mais escuros do armário do quarto.

Trata-se da “Outra Mamãe”, uma entidade sobrenatural grotesca que mimetiza com precisão a forma, a voz e os trejeitos da verdadeira matriarca, seu objetivo é claro e aterrorizante: conquistar o afeto inocente da garota para, gradualmente, substituir a mãe real e tomar a alma da criança, nos primeiros 40 minutos de projeção, a direção de Rob Savage demonstra um domínio admirável da linguagem de câmera e do espaço cênico, o uso constante de enquadramentos fechados, sombras alongadas e um desenho de som minuciosamente trabalhado transforma o interior da residência da família em um ambiente claustrofóbico e sufocante.
Jessica Chastain se destaca ao imprimir uma cadência profundamente desconfortável à tela, transitando com naturalidade entre a frieza distante da mãe verdadeira e as movimentações bizarramente não-humanas da impostora.

Outra Mamãe se supera no trabalho artesanal de maquiagem, próteses e efeitos visuais práticos, evitando o excesso de computação gráfica refinada demais o que frequentemente retira o peso da ameaça em produções recentes, o longa aposta em uma estética mais palpável.
Há sequências angustiantes, incluindo um ataque violento a um amigo próximo da família, que fazem excelente uso do horror corporal para provocar reações genuínas de choque no espectador, no entanto, o impacto dessas escolhas visuais é progressivamente diluído pela fragilidade do roteiro.

À medida que o monstro ganha mais tempo de tela e começa a manifestar poderes fantasiosos exagerados, a tensão psicológica cuidadosamente erguida no primeiro ato dá lugar a uma sucessão cansativa de clichês do gênero e sustos extremamente previsíveis, o mistério que sustentava a primeira metade do filme desmorona sob o peso de conveniências narrativas e atitudes irracionais por parte dos adultos, culminando em resoluções dramáticas que tangenciam o involuntariamente cômico.
Ao tentar equilibrar o drama íntimo do trauma familiar com o ritmo acelerado de um filme de monstros voltado ao grande público, Outra Mamãe acaba falhando em ambas as frentes, a premissa temática de usar a entidade como uma metáfora sobre o medo de quebra da unidade familiar fica em segundo plano assim que a narrativa abraça o espetáculo de efeitos especiais.

As decisões dos personagens no clímax desafiam a coerência do próprio universo criado, transformando a batalha final em um encerramento barulhento, Outra Mamãe passa longe de ser um desastre completo, sustentado principalmente pela entrega irrestrita de seu elenco principal e por uma direção de arte inspirada nas cenas iniciais, no entanto, deixa no espectador o sabor incômodo de uma grande oportunidade desperdiçada.

Fica a sensação de ter assistido a um portfólio técnico de maquiagem, iluminação e sustos isolados, mas que se esqueceu do ingrediente mais fundamental para que o verdadeiro horror permaneça: a construção de uma história emocionalmente sólida e inesquecível.
Nota 2.5/5