Opinião • Crônica
Proibir as bets soluciona o vício da população ou apenas protege o monopólio das loterias federais?
A discussão que tomou conta do país após a publicação da Medida Provisória pelo presidente Lula, proibindo a publicidade e a operação das bets, toca em uma ferida antiga: a proibição, por si só, resolve o vício? A resposta clínica, social e histórica é um sonoro não.
Especialistas em ludopatia (o vício em jogos) apontam que extinguir as plataformas legais não cura o viciado. O jogador compulsivo não deixa de jogar; ele apenas muda de endereço. Sem as bets regulamentadas, o mercado é empurrado de volta para a clandestinidade. O apostador migra para sites hospedados em paraísos fiscais ou para o velho jogo do bicho nas esquinas, onde não há nenhum tipo de controle, limite de CPF ou aviso de responsabilidade. A proibição apenas esconde a doença sob o tapete da ilegalidade.
Mas o divórcio entre as prioridades do Planalto e a realidade do país ganha contornos ainda mais irônicos quando o chefe do Executivo deixa de lado os relatórios ministeriais para assumir o papel de analista de mesa-redonda. O hábito de Brasília de tentar apitar o futebol ficou evidente nas cornetadas do próprio presidente. Após a eliminação do Brasil para a Noruega na Copa do Mundo, o mandatário gastou o valioso tempo do cargo para ironizar os atletas que atuam no exterior e não voltaram com a delegação:
“Mandei um recado para o Ancelotti, técnico da seleção brasileira. Aquela que foi com um monte de gente e voltou ‘sozinho’. Quase não tinha ninguém para voltar no avião da seleção, gente, que vergonha. Só voltou um jogador no avião, gente…”
Esse impulso de pautar o esporte nacional se repetiu de forma idêntica na transmissão ao vivo realizada ao lado do deputado André Janones. Em vez de focar nos indicadores socioeconômicos do país, o chefe do Executivo usou o espaço para dar um recado incisivo e direto na gestão e no patrocínio das equipes:
“O que o Brasil precisa é ter um futebol sério, clubes sérios e bem administrados. Não é induzindo o povo pobre a fazer dívida, a jogar, a se matar, a se violentar pra pagar jogador! Procure outros patrocinadores!”
“Ninguém podia gastar o dinheiro do leite, o dinheiro do pão, o dinheiro de uma chinelinha da filha, sabe, perdendo o dinheiro em bet, gente. O Brasil era muito melhor quando não precisava de Bets. O que o Brasil precisa é ter um FUTEBOL SÉRIO. Com clubes SÉRIOS e BEM ADMINISTRADOS. Não é induzindo o povo pobre, as mulheres, a fazer dívida, a jogar, a se matar… para pagar jogador! Procurem outros patrocinadores.”
O torcedor que assiste à cena, entre o espanto e o cansaço, não pode evitar a pergunta óbvia: quem está escalando os nossos hospitais? Enquanto o governo se preocupa se a delegação do futebol pega voo de volta ou tenta ditar publicamente como as diretorias privadas devem fechar seus acordos comerciais, a verdadeira seleção que o brasileiro precisa ver em campo está desfalcada. Falta o médico especialista na UPA, falta o leito de UTI desocupado, faltam os insumos básicos na farmácia popular. O cidadão na fila do SUS não precisa de palpite na escalação ou cobrança de gestão em clubes; ele precisa de um governo focado em erradicar as macas nos corredores.
O segundo ponto desse moralismo esportivo, contudo, é onde mora a verdadeira hipocrisia do debate. Quando o Estado decide que as apostas online são o grande demônio a ser extirpado em nome da saúde das famílias brasileiras, ele ignora deliberadamente o elefante na sala: a Mega-Sena, a Lotofácil, a Quina e a imensa cartela de jogos geridos pela Caixa Econômica Federal.
Por que essas loterias não entram no pacote de proibição? A justificativa oficial é puramente jurídica. As loterias tradicionais são monopólios ou concessões do Estado, carimbadas com o selo de “arrecadação social”. No entanto, para o cérebro de um viciado, o estímulo químico é exatamente o mesmo. A descarga de dopamina ao preencher um bilhete na lotérica ou ao girar uma roleta no celular não difere pelo logotipo que está no topo da página.
Questionamento Central
Isso nos leva à pergunta inevitável: o governo está mesmo preocupado com a saúde financeira e mental da população ou a pressa em canetar a proibição tem outros motivos?
A resposta oscila entre a arrecadação e a conveniência política. O governo federal abriu mão de bilhões em impostos que viriam com a regulamentação das bets para adotar uma postura proibicionista. Ao mesmo tempo, mantém intocado o mercado bilionário das loterias estatais, que continuam bombardeando o cidadão com propagandas em horário nobre, prometendo enriquecimento fácil no próximo sorteio acumulado.
Banir as bets sem criar uma rede de apoio psiquiátrico eficiente para os viciados, enquanto o próprio Estado atua como o maior banqueiro de jogos do país e o governante se comporta como torcedor de vestiário, não é política pública; é apenas uma transferência de mercado. Se o jogo destrói famílias, ele destrói tanto no clique do celular quanto no volante da lotérica. O resto é apenas uma disputa para ver quem fica com a chave do cofre.