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Vício em exercício é raro e pode estar sendo superestimado pela ciência

Vício em exercício é raro e pode estar sendo superestimado pela ciência

A ideia de que o excesso de atividade física configura, invariavelmente, um transtorno comportamental tem sido questionada por especialistas. Uma revisão recente publicada no Journal of Behavioral Addictions sugere que o vício em exercício é uma condição rara e que a prevalência do problema pode estar sendo superestimada pela literatura científica atual. O estudo, conduzido por pesquisadores da Hungria e da Austrália, aponta que muitos dos indicadores utilizados para diagnosticar a dependência podem, na verdade, refletir apenas altos níveis de comprometimento e disciplina.

A interpretação equivocada dos questionários de rastreamento

Os levantamentos analisados pelos pesquisadores identificaram variações significativas na incidência de risco de dependência, com índices que oscilaram entre 3% e 42% dependendo do grupo estudado. Essa discrepância é atribuída, em grande parte, ao uso de ferramentas de rastreamento que não possuem finalidade diagnóstica. Instrumentos como a Exercise Dependence Scale (EDS) avaliam comportamentos que podem ser interpretados tanto como patológicos quanto como traços de personalidade focados em metas.

Especialistas explicam que pontuações elevadas nessas escalas costumam estar associadas à paixão pelo esporte, ao perfeccionismo e à dedicação extrema. Portanto, esses resultados motivacionais não devem ser confundidos com uma patologia clínica. A verdadeira dependência de exercício, caracterizada pela perda de controle e prejuízos severos, permanece como um fenômeno pouco frequente na população geral.

Diferença entre dedicação atlética e dependência comportamental

Para o preparador físico Everton Crivoi, do Espaço Einstein de Esporte e Reabilitação, a linha que separa o atleta dedicado do indivíduo com transtorno é a presença de prejuízos reais. Organizar a rotina em função dos treinos e manter um alto volume de atividades são componentes comuns na vida de muitos esportistas e não configuram, por si só, um problema de saúde mental.

O sinal de alerta surge quando a interrupção do exercício provoca transtornos emocionais graves ou quando o indivíduo insiste na prática mesmo diante de lesões ou doenças. A capacidade de descansar e ajustar o cronograma sem sofrimento psíquico é um indicador fundamental de que a relação com a atividade física permanece saudável e funcional.

Contexto histórico e as raízes da disfunção

O debate sobre a dependência de exercício ganhou corpo na década de 1970, com observações pioneiras sobre alterações de humor em estudantes impedidos de treinar. Ao longo dos anos, o conceito evoluiu de uma “dependência positiva”, termo cunhado por William Glasser, para uma visão mais crítica que associa o excesso de treino a quadros de ansiedade, depressão e transtornos alimentares, como a dismorfia muscular.

É importante notar que os danos físicos decorrentes do excesso de carga não dependem da existência de um vício. A síndrome de excesso de treinamento, ou overtraining, e a deficiência energética relativa no esporte (RED-S) são condições fisiológicas bem documentadas que podem ocorrer devido a desequilíbrios entre o gasto energético e a recuperação, independentemente da motivação psicológica por trás do comportamento.

Para mais informações sobre os impactos fisiológicos do treinamento intenso, consulte o consenso do Comitê Olímpico Internacional sobre a síndrome de deficiência energética relativa no esporte.

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