Enquanto as salas de cinema do Rio de Janeiro agonizam com ingressos a preços de banquete, a RioFilme prefere gastar sola de sapato — e dinheiro público — nas estepes russas. Sob a justificativa nobre de “fortalecer o BRICS”, a agência municipal de fomento decidiu que o futuro do audiovisual carioca depende de uma simbiose cultural com Vladivostok. É a diplomacia do projetor, conduzida por quem parece ignorar que o espectador médio local mal consegue pagar a pipoca.
Leonardo Edde, o homem forte da RioFilme, bate ponto em Moscou pela terceira vez, fascinado pela miragem do “soft power”. A tese é linda no papel: vender o Brasil no exterior, atrair turistas e criar um ecossistema global. Na prática, flerta-se com a ilusão de que o público de Putin está ansioso para trocar suas superproduções patrióticas por dramas existenciais filmados em Copacabana.
Antes do primeiro “ação”, no entanto, vem o calvário burocrático. Edde adverte que é preciso “estruturar o negócio antecipadamente” e entender as interseções de audiência. Traduzindo do dialeto corporativo-estatal: preparem-se para anos de seminários, workshops e relatórios caríssimos para tentar descobrir o que um morador de São Petersburgo e um de Madureira têm em comum diante de uma tela.
A obsessão pelo bloco dos emergentes beira o delírio geográfico. Juntar Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul em um “mercado comum” de cinema ignora o elefante na sala: as barreiras linguísticas, as diferenças abissais de distribuição e, principalmente, as rígidas garras da censura estatal que operam em parte desses parceiros utópicos.
É claro que os Estados Unidos, a França e a Coreia do Sul usaram o cinema para colonizar mentes e mercados. Mas achar que a RioFilme vai replicar o fenômeno do K-pop ou a máquina de Hollywood articulando acordos com a burocracia chinesa é de um otimismo que só a verba pública consegue financiar. O abismo entre a pretensão global e a realidade local nunca foi tão largo.
O jargão da vez para dourar a pílula é “ecossistema”. Agora, a RioFilme não quer apenas fazer filmes; quer abraçar de inteligência artificial a infraestrutura tecnológica. Quando uma estatal municipal começa a falar em “conectar indústrias que servem ao cinema”, o contribuinte já sabe que o foco se perdeu em algum slide de PowerPoint multinacional.
Sob o manto do projeto “Destination Rio”, desenhado para o plano estratégico de 2025/2028, a prefeitura carioca jura que vai importar serviços e exportar propriedade intelectual. É o típico plano tecnocrata que funciona perfeitamente no vácuo, mas desmorona na primeira esquina de uma cidade que ainda sofre para garantir a segurança básica de suas locações urbanas.
O namoro com Moscou já rendeu até memorando de entendimento em 2024, além de uma visita russa ao Rio2C em 2026. O circuito de tapetes vermelhos e coquetéis corporativos segue de vento em popa. Celebrar “conexões entre mercados” é fácil quando os resultados são medidos por apertos de mãos em salas com ar-condicionado, e não por bilheteria real.
No fim, a tal aproximação do mercado audiovisual sino-russo-brasileiro parece mais uma desculpa sofisticada para turismo governamental de luxo do que uma estratégia comercial viável. Enquanto os burocratas se deslumbram com a geopolítica do audiovisual, o cinema nacional continua implorando por espaço nas salas de shopping dominadas por blockbusters norte-americanos.
Se o objetivo da RioFilme era criar “quase um mercado comum”, o resultado parcial é apenas um mercado comum de ilusões compartilhadas. O soft power carioca, por ora, serve apenas para garantir assentos na classe executiva rumo a festivais distantes, enquanto o cinema de verdade, aquele que o brasileiro gostaria de ver, continua sem tela e sem verba.