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O picadeiro eletrônico: começa a temporada do horário eleitoral gratuito

Chegou aquela época do ano em que o cidadão brasileiro é obrigado a financiar, com impostos e paciência, o maior show de ficção científica da TV nacional: o horário eleitoral gratuito. A partir desta sexta-feira, as emissoras de rádio e televisão interrompem sua programação normal para dar lugar a um festival de promessas delirantes, sorrisos ensaiados e jingles irritantes que vão martelar na sua cabeça pelos próximos 35 dias.

Para garantir que ninguém escape do massacre anestésico, os blocos de 25 minutos foram estrategicamente posicionados. No rádio, o pesadelo começa às 7h e volta ao meio-dia; na TV, o sequestro do controle remoto ocorre às 13h e às 20h30. É o combo perfeito para estragar o almoço e o jantar de qualquer trabalhador que só queria um pouco de paz ou um telejornal minimamente realista.

A divisão dos dias funciona como um rodízio de poluição mental. Terças, quintas e sábados são reservados para os aspirantes à Presidência e à Câmara Federal. Segundas, quartas e sextas ficam com a xepa do funcionalismo político: senadores, governadores e deputados estaduais. No domingo, em tese, há um descanso, se você ignorar as dezenas de inserções curtas que vão pipocar entre os comerciais de cerveja e sabão em pó.

No topo da cadeia alimentar do latifúndio televisivo, Luiz Inácio Lula da Silva abocanhou mais de cinco minutos diários de autopromoção. Graças a uma mega-aliança de conveniência que junta desde o PT até o PSB, passando por federações inteiras, o atual presidente terá tempo de sobra para desfilar maquetes tridimensionais de obras inacabadas e discursos de tom paternalista que parecem saídos diretamente dos anos 1980.

Logo atrás, com quatro minutos e vinte segundos, vem Flávio Bolsonaro pelo PL. O herdeiro do clã concorre de forma isolada, confiando no magnetismo da máquina partidária e no antipetismo visceral para preencher seu tempo. Espere por produções com estética de rede social, bandeiras do Brasil tremulando ao vento e discursos inflamados sobre ameaças comunistas imaginárias para manter a militância devidamente enfurecida.

Correndo por fora na raia dos remediados, Ronaldo Caiado dispõe de pouco mais de dois minutos. O representante do PSD terá que correr contra o relógio para se fazer notar em meio ao tiroteio dos gigantes. Suas aparições prometem a dose habitual de pragmatismo conservador e promessas de segurança implacável, embaladas na roupagem de quem tenta parecer a única alternativa sensata no meio do hospício político.

E o que dizer dos trinta e cinco segundos de Augusto Cury pelo Avante? É tempo suficiente apenas para o candidato dizer seu nome, número, gaguejar uma frase de efeito motivacional barata e desaparecer da tela antes que o eleitor consiga lembrar quem ele é. É o equivalente político a um panfleto jogado no para-brisa de um carro em movimento.

Os demais nanicos nem isso conseguiram. Graças às cláusulas de barreira, partidos sem representação mínima na Câmara foram varridos da grade de programação. Para esses excluídos do banquete público, resta chorar a falta de verba nas redes sociais e tentar viralizar com alguma bizarrice estética, já que o sistema foi desenhado justamente para manter o oligopólio dos donos do poder.

Enquanto o TSE corre atrás do próprio rabo tentando regulamentar o uso de inteligência artificial e combater deepfakes, o verdadeiro perigo continua sendo a mentira analógica tradicional, aquela contada por marqueteiros profissionais pagos a peso de ouro. Nenhuma tecnologia de manipulação facial supera o cinismo de um candidato prometendo zerar filas de hospitais que ele mesmo ajudou a sucatear nos bastidores.

O martírio tem data para acabar, ou pelo menos para dar uma trégua: dia 4 de outubro, data do primeiro turno. Se o eleitorado não resolver a fatura de primeira, a tortura recomeça no segundo turno até o fim do mês. Até lá, a única certeza é que o botão de mudo do controle remoto será o melhor amigo da democracia brasileira pelas próximas semanas.

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